Palestra online no dia quatro de novembro!

quinta-feira, 28 outubro, 2010

Finalmente consegui me organizar para começar a segunda rodada das palestras online! A palestra inicial, como da outra vez, é De Deaf Sentence a Surdo mundo: o eloqüente diálogo de surdos entre o original e a tradução do romance de David Lodge, que será apresentada no dia quatro de novembro (quinta-feira) das 19h até aproximadamente as 21h.

Os inscritos ficam desde já convidados a tentar resolver algumas das dificuldades tradutórias que enviarei por email. Trata-se de um simples convite, no entanto, e os mais tímidos não precisam apresentar nem resolver coisa alguma se não quiserem.

Para obter mais informações a respeito do assunto a ser tratado, clique no link acima com o título da palestra, ou então clique aqui para saber mais detalhes sobre a inscrição e o funcionamento do ambiente virtual.

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De Deaf Sentence a Surdo mundo

quinta-feira, 28 outubro, 2010

Nesta palestra eu detalho o processo tradutório e as soluções que adotei durante a tradução do romance Deaf Sentence/Surdo mundo, de David Lodge – um livro que apresenta muitas dificuldades curiosas literalmente desde o título até a última página. Como a história inteira gira em torno da surdez do protagonista, o texto original apresenta inúmeros mal-entendidos, trocadilhos, piadas baseadas em semelhanças sonoras entre as palavras e outros jogos lingüísticos similares que exigem um tratamento literário adequado no texto traduzido.

A partir da apresentação de vários trechos problemáticos, discuto algumas idéias teóricas relativas às estratégias tradutórias que podem ser adotadas e proponho soluções concretas para os as dificuldades apresentadas.

O objetivo é oferecer aos participantes um breve panorama do processo criativo envolvido na tradução de um texto com características formais tão marcantes.

Uma breve entrevista com algumas das minhas idéias a respeito desta tradução pode ser conferida aqui. Se quiser ler um trecho da tradução, clique aqui. Já se estiver procurando informações mais detalhadas sobre o funcionamento das palestras online, por favor não deixe de clicar aqui.

Palestra online no dia dois de setembro!

sexta-feira, 27 agosto, 2010

Após um período meio demorado de adaptação ao reinício das aulas do mestrado, estou retomando as minhas atividade online com a palestra A prosa espontânea de Kerouac em português: o processo tradutório do romance experimental Visões de Cody, a ser apresentada no dia dois de setembro (quinta-feira) das 19 às 21h. Vale a pena ressaltar que esse horário é aproximado, pois as duas palestras até agora duraram pelo menos meia hora mais do que o previsto!

Para obter mais informações a respeito do assunto a ser tratado, clique no link anterior, ou então clique aqui para saber mais detalhes sobre a inscrição e o funcionamento do ambiente virtual.

A prosa espontânea de Kerouac em português

sexta-feira, 27 agosto, 2010

Nesta palestra eu discuto o processo tradutório que adotei na
tradução do romance Visions of Cody/Visões de Cody, de Jack Kerouac.

Obra de forma livre e radical, Visions of Cody oferece inúmeros desafios tradutórios sobre os quais nem sempre é fácil encontrar material de apoio: neologismos, nonsense, transcrições de fala-em-interação, versos, aberrações ortográficas e prosa subversiva.

Para começar, comento o original inglês a partir de textos do próprio Kerouac em que o autor discute o método da prosa espontânea. A seguir, as soluções tradutórias – algumas das quais coincidem com o método usado por Antônio Houaiss na tradução do Ulisses, de James Joyce, e discutido no Panaroma do Finnegans Wake dos irmãos Campos – são apresentadas e discutidas.

O principal objetivo é mostrar, através de exemplos práticos e concretos, como as dificuldades tradutórias foram tratadas no texto final em português.

Uma brevíssima discussão das dificuldades e estratégias tradutórias adotadas nesta tradução pode ser lida nesta entrevista. Se você tem interesse em ler um trecho do livro, clique aqui.

Örkény István e um conto-minuto

quarta-feira, 13 junho, 2007

Pela primeira vez acho que consigo fazer uma atualização num espaço de tempo decente, graças ao tempo livre de que tenho desfrutado nos últimos dias. A bola da vez é um conto do Örkeny István; para quem se interessar, recomendo o livro editado pela Editora 34 chamado A Exposição das Rosas, traduzido por Aleksandar Jovanov. Na época eu ainda sabia muito pouco húngaro e portanto não tenho nada a dizer sobre a tradução como tal, mas me lembro que o texto em português é bom. Este livro contém duas novelas curtinhas e geniais (especialmente a própria “A Exposição das Rosas”), mas Örkény é famoso por levar essa brevidade da novela e do conto ao extremo, sob a forma de egyperces novella, ou seja, conto-minuto. A idéia é essa mesma: escrever um conto que o leitor possa terminar em menos de um minuto. Örkény, para atingir essa brevidade, deu grande importância aos títulos, e no prefácio aos contos-minuto escreve que “Devemos prestar atenção aos títulos. O autor buscou a concisão, e assim não pôde dar títulos irrelevantes. Antes de pegarmos um bonde, precisamos conferir seu número. Os títulos desses contos têm a mesma importância.” Talvez isso explique o nome monstruoso do curto texto que traduzi, que por si só já dá uma bela ajuda para interpretá-lo.

Há quem vá achar absurdo, não tenho dúvida – o que não deve ser um problema. Como o próprio Örkény também escreveu, “Quem não entender alguma coisa, leia mais uma vez a história problemática. Se continuar sem entender, então há algum problema com o conto.”

De qualquer forma, espero que não haja nenhum.

Boa leitura e, como sempre, escrevam, escrevam.

Muitas vezes nos entendemos bem nos assuntos mais complicados, mas acontece de não nos entendermos nas questões mais simples

(“Sokszor a legbonyolultabb dolgokban is jól megértjük egymást, de előfordul, hogy egészen egyszerű kérdésekben nem”)

 

História de Örkény István

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

– Bom dia. É aqui que vocês alugam colchões infláveis?

– O que o senhor disse?

– Não é aqui? Me disseram que neste estande verde era o depósito do Ministério de Comércio Interior.

– E aqui é o depósito do Ministério de Comércio Interior. Mas nós só alugamos cadeiras reclináveis, esquis aquáticos e colchões infláveis.

– Ótimo. Dois colchões infláveis então, por favor.

– Não entendo uma palavra do que o senhor está dizendo. Sprechen Sie Deutsch?

– Nicht Deutsch.

– Eu também falo um poquinho de francês. Vu sprechen francê?

– Nicht francê.

– Mas afinal em que língua podemos conversar?

– Desculpe, mas eu só falo húngaro.

– Muito bem. Mas então por que o senhor não fala húngaro de uma vez?

– Como assim? Sou húngaro, nasci húngaro e só sei falar húngaro. Quanto custa o aluguel do colchão inflável?

– Por favor, não me venha com essa conversa. Sou apenas uma estudante de filosofia e história. Estou no terceiro ano e, agora no verão, vim aqui ganhar um dinheirinho.

– Fez muito bem.

– Passo a metade do dia trabalhando, e a outra metade na praia. E para sua informação, aquele ali tomando banho de sol é o meu namorado, e ele está no time de pentatlo.

– Mas por que você está falando assim, nesse tom de voz?

– Porque aqui nós só alugamos cadeiras reclináveis, esquis aquáticos e colchões infláveis. Se o senhor tem segundas intenções, veio ao lugar errado.

– Não tenho segundas intenções. Acredite, quero apenas alugar dois colchões infláveis.

– Bei uns ist vollkommene Glaubensfreiheit.

– O que você disse?

– Que aqui há liberdade religiosa. Os estrangeiros costumam perguntar se é possível ir à missa aos domingos.

– Preste atenção, por favor. Você estudou lógica. Vamos tentar nos entender em termos lógicos.

– Que língua estranha essa que o senhor fala! Em húngaro também dizemos “lógico”.

– Já que tocamos no assunto da liberdade religiosa… posso saber se você acredita em Deus?

– Só no sentido kierkegaardiano: acredito na realização. O senhor entende ao que me refiro?

– Mais ou menos. Para alguém flutuar a mais de 140 mil metros e ainda assim ser feliz… Você conhece Teilhard de Chardin?

– Não era leitura obrigatória, mas li dois livros dele em alemão.

– E o que você achou?

– A primeira vez que li, fiquei pasma. Eu disse “crianças, eis aqui o gênio da modernidade”… Mas depois, justo na questão decisiva, quando ele começa a unificar a religião e a ciência, ele se perde completamente.

– Interessante. Grosso modo, é o que eu também penso. Mas se nos entendemos tão bem, por que não chegamos a um acordo quanto a essas porcarias de colchões infláveis?

– Vulê vu alugar quelquechoz?

– Ora, por favor. Nós dois podemos pensar em termos racionais. Veja bem: vamos prosseguir por eliminação. O que você diria se eu pedisse duas cadeiras reclináveis?

– Aqui estão, senhor. Temos cadeiras com e sem guarda-sol.

– Muito bem. Mas diga-me, e os esquis aquáticos?

– Temos três tamanhos. Qual o senhor gostaria?

– Nenhum. Na verdade eu gostaria de alugar dois colchões infláveis.

– Dois o quê?

– Uma coisa de cada vez. Parece que não conseguimos nos entender por causa dessas duas palavras.

– Quais?

– Essas duas palavras, juntas. “Colchão” mais “inflável”. Você sabe o que é um colchão? Colchão de casal? Colchão de solteiro?

– Claro.

– Sabe o que significa “inflável”?

– Por favor, não seja ridículo.

– Pois então junte as duas palavras e me dê dois colchões infláveis.

– Creio que o senhor está enganado. Aqui nós só alugamos cadeiras reclináveis, esquis aquáticos e colchões infláveis.

– Peço desculpas, minha jovem.

– Por favor. Não foi nada.

– Até mais.

– Tudo de bom para o senhor.

Molnár Ferenc e algumas boas novas

segunda-feira, 28 maio, 2007

Em mais um update que demorou mais do que eu gostaria para sair, posto um conto do Molnár Ferenc. Esse não foi traduzido para a aula: peguei uns três ou quatro desses contos dialogados e os traduzi como exercício. Gosto do estilo irônico e sarcástico. Se o pessoal também gostar, faço uma revisão caprichada nos outros e os posto também.

No mais, além da resposta positiva que tenho recebido aqui no blog, tenho a alegria de comunicar aos leitores que a tradução do conto do Kosztolányi Dezső que postei um tempo atrás (“Feri”) tirou primeiro lugar em um concurso multilíngüe de tradução, promovido pela Magyar Fordítóház (Casa do Tradutor Húngaro). O prêmio é uma estadia de uma semana na casa, em Balatonfüred, para onde em breve parto. Lá também vou participar da festa de lançamento do Füredi Fordítói Füzetek, um periódico anual com traduções de obras de autores húngaros em mais ou menos vinte línguas. A edição deste ano vai incluir minha tradução de “Não Matarás”, da Radics Viktoria, além de traduções para outros dezessete idiomas.

Boa leitura e não deixem de postar comentários, que sempre leio com a maior atenção!

 

A Borracha Bicolor

(“A dupla Radírgumi”)

De Molnár Ferenc

Tradução de Guilherme Braga

 

Personagens: pai e filho. O menino tem seis anos. A cena se passa no escritório do pai. Sobre a escrivaninha, uma borracha composta de duas partes. Uma delas é cinza-claro, a outra, cinza-escuro. A parte clara serve para apagar escrita a lápis, enquanto a parte escura destina-se a apagar tinta. O pai fala em tom sério, enquanto mexe na borracha.

 

O PAI: Então você só veio para casa às seis horas.

O FILHO: Sim.

O PAI: E disse que a professora só chegaria às seis.

O FILHO: Sim.

O PAI: Filho, escute. A professora veio às cinco, e ficou aqui sentada, esperando. Portanto, você mentiu.

O FILHO percebe a borracha.

O PAI: Você mentiu.

O FILHO olhando para a borracha: É.

O PAI: Você mentiu, filho, e isso já é um grande problema por si mesmo. Mas ainda por cima sua mentira foi desajeitada; afinal, você sabia que a professora viria às cinco horas e então iríamos descobrir tudo. Por que você fez isso?

O FILHO pensando em voz alta: Sei que o lado claro serve para apagar mas não sei para que serve o lado escuro. Nunca vi uma borracha assim.

O PAI: Responda.

O FILHO: Ã?

O PAI: Responda por que você fez isso.

O FILHO: Sim. Pensando em voz alta: Será que é colada? Não pode. Ou pintada com uma tinta escura? Também não. Mas então, como é que uma metade é clara, e a outra, escura?

O PAI: Ora, não precisa ficar tão preocupado, filho. Eu não mordo. Responda sem medo, como um homem. Olhe nos meus olhos. Não precisa ter medo. Eu não vou castigar você, apenas chamar sua atenção. A coisa mais inteligente a se fazer nessa vida é sempre falar a verdade. Olhe nos meus olhos. Não precisa ter medo. Por que você mentiu?

O FILHO: Porque… porque… Pensando em voz alta: a metade escura não serve para segurar a borracha, porque ali também está gasto, como se tivessem usado aquela parte para apagar. Então aquilo também é borracha. Mas essa ponta deve ser de alguma borracha especial, senão ela não seria de outra cor.

O PAI para si mesmo: O garoto tem muita auto-estima e é muito honesto. Vejam só, estou falando com ele em um tom amigável, mais amigável impossível, e mesmo assim ele está sendo vago, responde perturbado. Eu sou uma grande influência para ele. Digamos que no meu olhar há um certo rigor que me fez famoso em minha carreira de juiz. Os réus também ficam perturbados se olho demais para eles. Mas bem, agora não sou um juiz, e não estou diante de um réu. É o meu filho. Preciso tratá-lo de um jeito mais amigável. Amigavelmente: Filho querido, você se arrepende de ter mentido?

O FILHO: Me arrependo. Pensando em voz alta: Me arrependo de tudo, confesso tudo, peço desculpas, peço o que você quiser, desde que isso acabe de uma vez. E assim que você sair, vou dar uma boa olhada nessa borracha.

O PAI: Promete não mentir mais?

O FILHO: Prometo.

O PAI: Então dessa vez você vai escapar do castigo, filho. Mas, para que você não esqueça esse dia, você vai escrever cem vezes: “Não devo mentir jamais”.

O FILHO: A lápis ou a caneta?

O PAI: A caneta. Mas, filho, estou vendo que você é um menino honesto, que nem protestou contra o castigo. Então, se você pedir desculpas bem bonito, também não precisa escrever a frase cem vezes. Pensando em voz alta: Preciso tratar meu filho com carinho. Ele é um bom menino. Eu também era assim.

O FILHO pensando em voz alta: Lá se foi a borracha.

O PAI: O quê?

O FILHO: Prefiro escrever, papai.

O PAI: Como? Não vai pedir desculpas?

O FILHO: Não.

O PAI para si mesmo: Igualzinho a mim. Igualzinho a mim. Ele não precisa de uma caridade que abuse de sua auto-estima. Eu também era assim. Mas, como pai, não posso admitir uma coisa dessas. Dirigindo-se ao filho: Não vai pedir desculpas? Você não vê que fez uma coisa errada?

O FILHO para si mesmo: Com certeza a borracha apaga tinta muito bem. Mas também vou tentar apagar o lápis com a ponta escura.

O PAI: Filho, responda. Calar-se é um ato de coragem, mas não há por que fazer isso diante do seu pai. O pai não é apenas juiz, mas também seu amigo.

O FILHO para si mesmo: Se eu disser uma única palavra, ele já desiste do castigo, e aí não vou poder ficar na escrivaninha. Mas eu vou pegar uma faca e cortar um pedacinho, bem pequeninho, para ele não perceber.

O PAI: Você não confia em mim?

O FILHO para si mesmo: E aí vou sujar o lugar onde eu cortei com o dedo, para ele não ver o corte.

O PAI: Mas como você é persistente! Muito bem. Satisfeito, para si mesmo: Eu também era assim, eu também era assim.

O FILHO: Papai, eu…

O PAI: Sim?

O FILHO: Eu vou escrever as cem vezes.

O PAI para si: Não posso dispensá-lo do castigo. Fico feliz por ele não ter pedido desculpas, mas agora ele precisa escrever as cem vezes. Eu também preferia agüentar o castigo a me humilhar. Ao filho, sério: Então você vai escrever agora mesmo “não devo mentir jamais” cem vezes. E só vai jantar depois de terminar as cem!

O FILHO: Cinqüenta a lápis e cinqüenta a caneta.

O PAI: Pouco importa. Agora você vai sentar aí na mesa, e não me apareça na sala de jantar enquanto não estiver pronto. Vamos lá. O menino se senta. O pai se dirige à porta.

O PAI para si: Ele nem piscou. Estava alegre, inclusive. Fico feliz por ele não ter se humilhado. Estou satisfeito. Esse garoto tem um grande caráter! Sai.

O FILHO para si: Finalmente! Uma hora mais tarde.

O PAI: E Então? Pronto?

O FILHO: Pronto, papai. Só que me enganei e escrevi a mais. Escrevi cento e dez vezes. Mas agora mesmo vou apagar essas dez. Cinco a lápis e cinco a caneta. Apaga com o rosto corado de prazer.

O PAI para si: Quanta exatidão, quanta organização, quanta meticulosidade! Personalidade, auto-estima, obstinação masculina e meticulosidade… exatamente como eu, exatamente como eu. Vou fazer dele um juiz! Feliz, beija a cabeça do filho.

Conto Erótico: Radics Viktoria

segunda-feira, 16 abril, 2007

Eis a nova tradução: um trecho do conto Ne Ölj! (“Não Matarás”), de Radics Viktoria, publicado em uma antologia de literatura contemporânea chamada Éjszakai Állatkert, cujo tema é a sexualidade feminina. Foi meio que um golpe de sorte, pois o tema tem tudo a ver com o livro que atualmente traduzindo do inglês – então eu já estava no clima – e, de quebra, a tradução vai (pelo que tudo indica) ser publicada no Füredi Fordítói Füzetek, um caderno anual que traz sempre o texto de um escritor húngaro na língua original e em mais ou menos vinte outros idiomas.

Mesmo assim, a tradução demorou outra vez, pois foi um tanto cheia de particularidades (e nesse ponto aviso que vou discutir algumas o texto e a tradução: quem quiser fazer uma leitura com jeito de surpresa, pare de ler minhas divagações por aqui mesmo, leia o texto e continue lendo os comentários depois. De modo bem sucinto e drástico, SPOILERS AHEAD!).

Como se não bastassem alguns problemas, digamos, “normais” da tradução literária – trocadilhos, imagens difusas, metáforas e insinuações diversas –, dessa vez apareceu um problema com o qual eu ainda não havia me deparado: citações diretas e “mexidas” de um cânone literário estrangeiro e absolutamente desconhecido do leitor-alvo, como, no caso, a poesia húngara. Por citação “mexida”, refiro-me a uma distorção de um verso ou citação conhecida, que para as pessoas do ambiente cultural onde a obra original foi criada é instantaneamente reconhecível – imaginem algo como

Minha terra tem pedreiras

Onde plantam jatobá

 

ou

 

Mas que seja esquisito enquanto dure

 

Não preciso dizer que isso foi provavelmente o que mais tomou tempo, já que não se tratava apenas de traduzir, mas também de decidir o que fazer. Notas de rodapé, como sempre, estavam fora de cogitação – detesto. Ademais, pesquisei mas não achei traduções para o português dos versos citados, o que significa que eu teria dois problemas: (1) de alguma forma dar a entender que se trata de uma citação e (2) de alguma forma dar a entender que a citação fora “mexida”. Para os versos citados diretamente, bastaria traduzir e de algum modo sinalizar. Mas como “mexer” em uma citação que sequer existe em português? Após alguns dias quebrando a cabeça, cheguei a uma solução que me pareceu razoável: traduzi o verso original e depois dei um jeito de mexer nele de modo que remetesse à minha própria tradução dele. Claro, como a minha tradução “direta” do verso não está publicada em lugar nenhum e ninguém a conhece, o mecanismo de referência não funciona, mas pelo menos me pareceu uma saída razoável e metodologicamente correta.

Quanto a sinalizar as citações para o leitor, o próprio texto acabou me dando uma solução. Lá pelas tantas a autora cita diretamente um verso e escreve, entre parênteses, lopott idézet – em bom português, “citação roubada”. Bom, aqui a autora sinalizara uma delas, mas eu precisava sinalizar também as outras pelos motivos explicitados acima. A solução foi traduzir por “mais uma citação roubada”, o que me pareceu apropriado.

Não vou me estender demais aqui, mas de repente em outra oportunidade me aprofundo mais um pouco em relação a como fiz esta tradução. Outras dificuldades incluíram um trocadilho e alusões não-intertextuais, que não vou explicar para dar um pouco de trabalho ao meu leitor e também porque creio estarem visíveis no texto em português. Boa leitura!

 

Não Matarás

(“Ne Ölj!”)

 

Do texto de Radics Viktoria

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

A mágoa cigana lhe tolda o olhar – não resta dúvida. Os lábios ciganos, a pele violeta-cigano, bronzeada, as ondas azuis sob os olhos e a sina crioula. (Ou melhor: como alguém que passou dois meses de férias no Adriático.) A vida cigana atrás, dentro, abaixo dele – só não acima, pois lá o firmamento divino fulgura. Os cabelos brancos. Como nos contos-de-fada, digo, intelectual malvada que sou: a choça, a mãe pedinte, a sopa de cenoura, as brigas, as facadas, o crime, a tosquia de ovelhas, o submundo de Budapeste e, claro, a prisão, como não podia deixar de ser; a pedreira… “Foste traído por tanto te amarem, Traíste e agora não podes amar”; o dinheiro, as cartas, a redenção. Literata estúpida, ouço as histórias do submundo boquiaberta. No velho Škoda, passamos em frente a uma igreja evangélica. “Entramos ali uma vez”, diz ele, apontando para o escritório, “e só achamos um computador velho e uns 30 mil forintes. Mas enfim, que se dane!”

 

Vejo despertar no cigano um sentimento muito similar ao meu. Vibramos – uma harpa eólica em meu coração, o dele palpita, “Minha alma-rapina as grades partiu” (ad notam: “Já não se imagina em meio ao vazio”), aconchegamo-nos um no outro, me escondo por baixo da pele cor de café; minha brancura o agrada, bebo, bebo, bebo o néctar oculto entre seus lábios, a língua, as palavras, o mosto da montanha. Você fica muito bem aí; em meio às folhas da videira, o cacho escuro, que tomo na minha mão, como as uvas, desfaz-se, beijo as bagas, como-as no cacho, enfio meu rosto, meu nariz – e minha garganta também está alegre, ungida e honrada.

 

Ele traz muitas tolices dentro de si, claro, dogmas e mais dogmas, como remendos e mais remendos, ainda que não remende ou conserte tachos e caçarolas, mas idéias carolas – eu teria pulado no pescoço de qualquer outra pessoa, mas dele eu tolero (ainda que me desagrade) e sinto justamente que, no fim das contas, não sei nada. Me agarro a um destroço podre no mar pós-moderno. Tudo é em vão, meu conhecimento acumulado ao longo de trinta anos não é nada. Ele que tente se endireitar. Mesmo quem sofre o preconceito de todos também é cheio de preconceitos (o que, aliás, parece ser uma regra). Cretinices absurdas saem de sua boca. Da minha também; sou cheia de clichês intelectuais. “Minha professorinha.” Às vezes fala como se houvesse perdido sangue; perde a cabeça, beira a agressão (“puxe logo a faca”, digo, mas ainda assim começo a dar risada) e fala contra os homossexuais e contra as mulheres – contra as mulheres, enquanto percebo que ele me ama; contra a concupiscência, enquanto ele tem vontade de trepar comigo até o dia raiar, de tudo quanto é jeito, mesmo antes do “casamento”. Os veados, na exclusão, recorrem a seus semelhantes – e as mulheres, óbvio, são os bodes expiatórios. É claro que tudo isso vem da igreja. Insuportável.

 

Levanto-me de imediato: deixo-o por aqui mesmo, e ele que se dane e me mate, animal estúpido; vamos virar balada. “Eu te desejo como um bicho.” Bruto, estúpido. “Diz ‘pau’.” Não digo. “Vou te foder tanto, mas tanto!”, cochicha ele, excitado, logo depois de afirmar que as mulheres são todas como Jezebel – a ruína e a destruição dos homens, feiticeiras cruéis e ímpias – e de fazer pouco caso da emancipação feminina. Agora só falta dizer que sou puta por estar com ele; mas nesse ponto ele fica pensativo.

– Ontem você me ofendeu, insultou o meu sexo – digo ao telefone. – Eu não fico ridicularizando os homens!

Sim, chegamos a esse ponto. Estou pasma.

 

Não me incomoda que às vezes ele seja tão artificialmente imbecil, pois no fundo sinto o palpitar belo de seu intelecto natural, envolto em pele de leopardo; eu também sou estúpida, cretina e louca – afinal, o que foi que aprendi com aqueles milhares de livros? No fim, menos do que ele aprendeu com apenas um. Como se ele houvesse freqüentado uma academia aeterna, treinado a língua com a Bíblia de Károli, lido um único livro com todo o coração, enquanto eu li mil de má vontade. Sem falar das diferenças entre nossas experiências. Mas no fim aprendi pelo menos a prestar atenção – ou será que nem isso? Observar, prestar atenção e perceber, farejar, tocar e sentir… É para isso que rezo. Pela verdade, não para que os meus conceitos triunfem, mas Ele, pela palavra. Eu não passo de uma rata de biblioteca, um ornitorrinco, um emaranhado de miolos femininos, e já fui um pouco amada por causa disso – um pouco, que fique bem claro.

Ele também nunca foi amado de verdade. Um garoto cigano de 47 anos, humilhado. “Você nunca vai ser ninguém” – e ele apanhava e brigava, jogava um carteado, roubava, saqueava, batia e furava para isso, como um espinho ao outro (mais uma citação roubada). E eu falhei, machuquei a mim e aos outros, traí ser humano e consciência. Talvez o que para ele foi acaso, para mim tenha sido arte? Perdemos tudo.

Ninguém nos ama.

Novo Poema: Tandori Dezső

quarta-feira, 21 março, 2007

Esta atualização já estava virando lenda. Mas pudera: o poema que tivemos de traduzir deu trabalho de sobra. O professor fez vários comentários sobre a artificialidade da linguagem, para que atentássemos a mantê-la na tradução. Apesar da esquisitice e do jeito de dizer as coisas metendo os pés pelas mãos, acho que o poema agora está, de fato (e finalmente, após um sem-número de revisões!), em português.

A propósito: as ruas citadas no poema existem, todas. Detesto traduzir nomes de lugares, mas no caso me convenci de que era necessário, pois há trocadilhos e subentendidos que dependem de que o leitor entenda o nome das ruas. Na única ocorrência de um nome que parece não ter significado especial, mantive-o em húngaro, para manter o gosto estrangeiro.

Sobre a divisão dos versos: o original não tem esquema métrico aparente. Eu, pelo menos, não achei lógica nenhuma, nem contando a quantidade das sílabas (que é a tradição húngara), nem contando as sílabas métricas. Assim, dividi-os de forma a manter aproximadamente o conteúdo de cada verso do original, mantendo os cortes em lugares esquisitos, justo antes de terminar certas frases, e outros expedientes esquisitos, como começar um verso com travessões parentéticos.

E chega de trololó. Ao poema.

 

Acontece assim e assado

(“Így is, úgy is törtenik”)

 

Poema de Tandori Dezső

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

Ao sair do barbeiro – comecemos assim – era preciso atravessar

ou cortar o meio da rua, cortar a tal da rua principal

ao meio. Então rumo a uma passagem, de modo a sair por outra

passagem na tal de rua Jégverem. Claro, eu bem podia

ter dado a volta no quarteirão, ou melhor: não teria

sido necessário entrar pela passagem de um quarteirão e

sair pela outra. No entanto, assim pude estar lá dentro

– até quando? –, o que, de cabelo recém-cortado, foi de certa forma

vantajoso. No portão de saída pude – por quanto tempo? – tomar as

rédeas da situação; mas o cabelo lambido seca devagar, e assim

a operação desgrenhante a ser empreendida em casa não era antecipável;

não que pudesse ser adiada! Atualmente na tal de rua do Ataque

essa operação necessária mais ou menos de quatro em quatro

semanas é levada a cabo mais ou menos de seis em seis. A ocasião

faz-se acompanhar de um banco, lá fora, que por ora fica para

contemplação, mas a qualquer momento pode “cair bem” uma sentada;

faz-se acompanhar de um sorvete, talvez da satisfação de necessidades

postais. A desarrumação do cabelo cortado, minguado,

seco – ao sair –, as compras, o rosto parecendo mais

gorducho, o sentimento mais anguloso; os dois opostos

irreconciliáveis. Era sempre assim. Da tal rua do Túnel

seguimos reto e adentramos seu designante, que – no entanto

– jamais estivera tão iluminado quanto agora! Cravejado

de pequenos não-sei-o-quês. Não sei

(para que eu me repita) se hoje gosto mais do

treino em passagens escuras ou desta marcha triunfal;

digamos apenas que é possível; que um foi então,

e se tivermos sorte, o outro: ainda antes.

Comentários & Tradução do Kosztolányi

segunda-feira, 5 março, 2007

Estou publicando hoje o “Feri”, do Kosztolányi Dezső. Foi especialmente este autor que me inspirou a estudar a língua húngara. Recomendo os contos dele sem restrições – são simplesmente geniais. Quem se interessar pode catar a Antologia do Conto Húngaro, organizada e traduzida pelo Paulo Rónai, ou o pequeno volume O Tradutor Cleptomaníaco e Outras Histórias, da Editora 34, traduzido pelo Ladislao Szabo. Meu conto favorito está na Antologia… e se chama “A Lancha”. Talvez um dia me dê na louca e eu faça minha própria tradução dele para pôr aqui, de tanto que eu gosto do conto.

Mas voltando à bola da vez: fazer a primeira minuta deste “Feri” foi relativamente tranqüilo com o dicionário à mão (apesar do vocabulário do conto ser muito rico, a história é bem pé-no-chão), mas ela ainda cheirava demais à sintaxe e às construções do original. Deu uma trabalheira dos infernos ajeitar o texto de modo que soasse em português.

E para quem me escreveu pedindo que eu falasse sobre o processo e as dificuldades específicas da tradução húngaro-português: prometo que ainda vou escrever alguma coisa. O problema é que ainda traduzi muito pouco da língua, então não sei se valeria a pena falar disso agora. Além do que, graças à gentil indicação do Danilo, fui convidado para escrever um artigo para o Translation Journal. Deve sair lá por julho, e nos meses que faltam até lá vou ir juntando minhas histórias. Quando sair, posto o link para quem se interessar.

E aproveito para mandar mil beijos para minha namorada e revisora favorita, Mariana Donner, que faz sempre uma leitura superatenta do que escrevo e dá várias sugestões pertinentes. Ela também tem méritos no que as traduções tiverem de bom!

Como sempre, elogios, críticas, sugestões e receitas serão muito bem-vindas. Boa leitura!

 

Feri

 

História de Kosztolányi Dezső

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

1

 

Wilcsek morava em uma casinha simples em Buda. As duas janelas de seu único quarto davam para uma rua em L abandonada.

Quando a primavera chegou, um gramado recobriu a calçada em frente. Um gramado desses desgrenhados, baldios, que acumulam sujeira, são pisoteados dia após dia e ainda assim crescem cada vez mais.

O gramado é o tapete dos pobres. As crianças não tardaram em ocupá-lo. A rua congregava todos os pestinhas, artesãos, zeladores e desempregados jovens e idosos, a quem, passado o inverno, as quatro paredes do porão tornaram-se demasiado estreitas. Aqui os garotos aprontavam travessuras e as garotas ninavam bonecas. No gramado, as mães também ofereciam o seio a seus rebentos.

 

2

 

Com a chegada do verão, declararam o gramado um campo de futebol. A bola voava de um lado para o outro, em meio a gritos estridentes:

– Gol! Juiz, cadê o juiz? Gol!

Em seu quarto, Wilcsek desenhava e fazia cálculos, com os óculos verdes sobre o nariz. Volta e meia ele se levantava e olhava para a rua, curioso. Uns dez garotos de pés descalços, vestindo camisetas de manga cavada, amontoavam-se à sua frente como um enxame de vespas. Wilcsek ouvia constantemente seus nomes: Jancsi, Ottó, Gyuri, Tibor, Feri, Géza, Pisti, Károly e depois Béluska, um adolescente que, parrudo como só ele, tirara esse apelido ninguém sabia de onde.

No início, Wilcsek se entretinha com o barulho. Não houve problemas enquanto tudo era novidade. Mas assim que virou um hábito, aquilo passou a enfará-lo, e em seguida a irritá-lo sobremaneira. Wilcsek esperava algo diferente, uma surpresa. Mas os garotos seguiam batendo na mesma tecla. Mal acabava uma partida, começava a seguinte:

– Criançada, de pé. Quem é o juiz? Gol, gol!

A situação ficava cada vez mais insuportável. Wilcsek não conseguia se concentrar no trabalho. Aos suspiros, andava de um lado para o outro no quarto. Esperava que um milagre pusesse fim a isso tudo. Mas o milagre não vinha. A baderna só fazia crescer:

– Bate, Pisti, bate! Feri, arrisca! Béluska, chega junto! Gol, gol, gol!

 

3

 

Wilcsek era um velho solteirão, mas afável. Não evitava as pessoas. Prezava a boa-vizinhança acima de tudo e não queria incomodar as crianças sem necessidade. Assim, segurou-se por mais uns dias, mas no fim tomou uma decisão.

Num dia em que a algazarra passou dos limites e os garotos urravam como índios sioux, Wilcsek falou com voz mansa, quase maternal:

– Garotos, joguem mais quietinhos.

Fez-se um silêncio sepulcral.

Ao despertarem do sonho no gramado, os garotos viram um homem na janela, um senhor velho e de barba, com óculos verdes, que aparecera de súbito, como um boneco de mola salta da caixa. Ficaram muito admirados. Pode ser que tenham se deleitado um pouquinho com aquela visão – especialmente com a barba, os óculos verdes –, como as crianças pobres costumam fazer diante de qualquer novidade.

E continuaram a jogar, um pouco mais quietinhos.

No segundo tempo houve mais situações controversas: apitaram “mão” e bateram pênaltis. Gritos de guerra pagãos irrompiam toda vez que a bola rolava para dentro da trave imaginária, em meio aos protestos revoltados do time rival.

Dessa vez, Wilcsek foi curto e grosso ao chamar-lhes a atenção:

– Fiquem quietos. Ouviram bem? Fiquem quietos!

 

4

 

Mas de que adiantava? Por um instante havia silêncio, e logo a farra irrompia novamente, ainda mais selvagem. Aquilo já não eram mais crianças, mas sim demônios, verdadeiros demônios.

Wilcsek queria resolver o assunto amigavelmente. Procurou os vizinhos. Explicou a diversos zeladores, serventes, sapateiros e quitandeiros que não era possível trabalhar com aquele barulho infernal e pediu que mandassem as crianças brincar em outro lugar, ou que as convencessem a ficar mais quietas. Ninguém o recebeu de cara amarrada. Apenas se queixaram, alegando que era verão, o apartamento era pequeno, os garotos já haviam passado o inverno inteiro enfurnados em casa e também precisavam brincar em algum lugar, coitadinhos.

E assim as partidas prosseguiram. Jancsi, Ottó, Gyuri, Tibor, Feri, Géza, Pisti, Károly, e também Béluska, o adolescente feio e parrudo – os garotos que até então brincavam juntos, mais os novos, que no meio-tempo se juntaram à turma, todos adeptos fervorosos do futebol, gritavam, rugiam, berravam.

 

5

 

Wilcsek se defendeu como pôde.

Por alguns dias tentou manter as janelas fechadas. Assim o barulho diminuía um pouco. O triunfo dos vitoriosos e os estertores dos vencidos chegavam mais abafados, mas no quarto pequeno e bolorento o ar ficou viciado, sufocante. Além disso, mesmo contra sua vontade, Wilcsek continuava a prestar atenção ao que se passava lá fora.

– Deus! – resmungou – esses pênaltis não vão acabar nunca? De quem são esses gritos cortantes? É Feri, é a voz de Feri. Eu reconheço.

Numa tarde atordoante de tão quente, Wilcsek escancarou a janela e bradou:

– Sumam já daqui. Façam o favor de ir jogar mais para lá ou mais para cá. Isso aqui não é lugar de brinquedo. Estou trabalhando! – e mostrou-lhes a régua que vinha brandindo. – Não ouviram? Desapareçam, vamos!

As crianças, que no início se maravilham com tudo, logo se habituam às maravilhas. Os garotos já achavam perfeitamente natural ver esse senhor esbravejando o tempo inteiro em meio a eles. O barulho prosseguia, como se nada tivesse acontecido. Wilcsek suportou aquilo por mais alguns instantes, e então deu mais um pulo até a janela. Tremendo de ódio, espumando de cólera, gritou:

– Seus moleques atrevidos, malcriados! Sem-vergonhas! Pivetes! Vocês vão ver só, seus fedelhos!

Com isso ele sumiu da janela. No instante seguinte apareceu no portão, com a cabeça descoberta, em mangas de camisa. Apertou o passo o quanto as pernas velhas e decrépitas lhe permitiam e se afastou.

Wilcsek retornou acompanhado de um policial. O policial tinha um sabre, um sabre grande e comprido. Os garotos ficaram um pouco assustados. Mas não interromperam a partida: apenas tocavam a bola um pouco mais devagar.

As crianças do século XX, independente da classe social a que pertençam, têm ciência de serem os ídolos de nossa época, a luz no olhar dos adultos, a esperança futura. Assim, portam-se com a altivez esperada, como herdeiros do trono.

Os garotos não se deram por vencidos. Notaram que Wilcsek conferenciava com o policial, mas também que este dera de ombros e começara uma discussão. Esperaram até que o policial se aproximasse. E então ele disse alguma coisa. Provavelmente, que tentassem jogar um pouco mais quietinhos.

 

6

 

A chamada do policial foi uma declaração de guerra. Naquele dia, as relações diplomáticas entre Wilcsek e os garotos foram cortadas, a situação degenerou em guerra: a batalha eclodira às bandeiras despregadas.

O futebol em si perdeu completamente a importância. A cada dia que passava, o jogo se desvirtuava mais um pouco. Agora, o que empolgava os garotos era escolher os melhores suplícios para torturar sua vítima.

Arranjaram um apito e uma ocarina. O alarido embaixo da janela começava de manhã e prosseguia até a noite. Às vezes, para variar um pouco, os garotos começavam a miar. Feri os ameaçava, em tom de deboche:

– Lá vem o policial! Rá, aqui está o policial. Onde está o policial?

E então todos desatavam a rir.

 

7

 

Wilcsek resignou-se ao destino. Deixou que o barulho se infiltrasse no quarto e engolisse tudo, como uma enchente. Reclinou-se no divã. Em silêncio, bufava, engolia a irritação. A todo instante tinha de interromper o trabalho. Em várias ocasiões ele arruinou um desenho e precisou começar tudo de novo.

O que se passava durante o dia ele só descobria à noite, quando de repente tudo silenciava. O sossego instaurava-se como uma calmaria entorpecente. Mas Wilcsek não conseguia descansar. Seus ouvidos ainda soavam, retiniam.

Dormir também era um problema. Os episódios cinematográficos rodavam diante de seus olhos, e Wilcsek ouvia vozes, em especial a odiosa, insuportável voz aguda de Feri.

“Uma vergonha!”, dizia, discutindo na cama com o garoto. “Você é uma vergonha, Feri! Os outros são apenas uns pirralhos ignorantes e baderneiros, mas você os lidera, incita, instiga-os contra mim. Você está me matando, arruinando com meus últimos dias, me assassinando aos pouquinhos – a mim, um pobre velho que nunca fez mal nenhum a você! Que devo fazer? Eu podia jogar água fria ou alguma porcaria em você enquanto você guincha embaixo da minha janela, ou ainda óleo, óleo fervente, como as corajosas mulheres de Eger jogaram nos espadachins turcos. E ia ser bem feito. Ah, se eu o pegasse! Eu lhe daria uns belos puxões de orelha, à noite, no escuro, enquanto ninguém estivesse vendo. Puxaria suas orelhas até o sangue brotar, até eu arrancá-las, até eu tê-las na mão como dois trapos, que em seguida eu jogaria no chão. Com a ponta do meu compasso eu furaria seu maldito crânio. Ou me ajoelharia sobre seu peito, subiria na sua barriga, pisotearia seus olhos com os dois pés, estrangularia sua garganta, espremeria o ar de sua laringe bem devagar e ficaria olhando você ficar pálido e depois roxo, seu porco. E não importa que você seja mais fraco. Na verdade você é mais forte, porque se vale da sua fraqueza. Você é um malfeitor abjeto. Um assassino, assassino.”

Com esses pensamentos, Wilcsek adormeceu. Despertou aturdido, com a cabeça latejando. Na rua, a folia já ressoava. Todo santo dia era a mesma coisa.

Wilcsek encarou o execrável garoto apenas uma vez, quando Feri atirou uma enorme pedra para dentro de seu quarto.

Ameaçando-o com os punhos, gritou:

– Pare, seu canalha, pare! Você vai ver só.

 

8

 

Assim passaram junho, julho e a primeira metade de agosto.

Em uma manhã cinza de agosto, Feri estava deitado no gramado, sozinho. O tempo prometia chuva, e seus companheiros estavam atrasados. A seu lado, os apetrechos barulhentos descansavam sobre a grama – o apito e a ocarina. Mas Feri não estava corneteando. Ele olhou para o céu, e então cerrou os olhos.

Wilcsek contemplou-o longamente de sua janela, sem que Feri percebesse.

Era um garoto magricelo como um passarinho, de pés descalços. Não usava sequer uma camiseta de manga cavada, apenas calças de chita cor-de-burro-quando-foge. Os suspensórios azuis se esticavam em cruz sobre as costelas salientes.

“Morra”, pensou Wilcsek, inebriado pelo ódio, “apodreça” – e ele também cerrou os olhos, de tanto que desejava, com todo coração, a morte do garoto.

Quando Wilcsek abriu os olhos, Feri permanecia deitado, imóvel. Estava muito pálido.

Mais tarde – por volta de dez horas – o circo recomeçou, e prosseguiu, como de costume, até às oito da noite.

 

9

 

No dia seguinte armou-se uma tempestade. O aguaceiro caía a cântaros; os raios refulgiam e caíam por toda parte. A fúria celeste trouxe consigo uma trégua. Por um dia inteiro os jogos cessaram.

Pela manhã, os garotos trabalhavam com zelo dobrado para compensar o tempo perdido. Divertiam-se jogando a bola em uma poça, que respingava para o alto, e vendo-a rolar, arrastando um véu de lama atrás de si.

Wilcsek, que observava tudo de soslaio, tentou em vão encontrar Feri. No dia seguinte também o procurou, novamente em vão. Passou-se uma semana sem que visse o garoto.

– Por onde anda aquele indesejável? – perguntou um dia de manhã à faxineira, que passava o quarto em revista.

– O senhor não sabe? – respondeu ela, pasma. – Morreu.

– Feri? – protestou Wilcsek.

– Sim, ele mesmo.

– Feri? Feri morreu? – gritou Wilcsek antes de despencar sobre uma cadeira, horrorizado como se falassem de seu próprio filho.

– Esse, esse mesmo – insistiu a faxineira. – Feri, o filho do servente. Levaram o menino para a clínica, mas ele morreu. Anteontem foi o enterro. Achei que o senhor já tinha ouvido por aí.

 

10

 

Wilcsek só conhecia pais e filhos separadamente. Na casa defronte à sua morava um servente. Mas este, conforme ele apurou, só tinha filhas. No porão da casa ao lado morava um outro servente.

Um dia, ao anoitecer, Wilcsek passava em frente a esta casa. Na janela, uma senhora pequena e magra remendava meias. Wilcsek não costumava conversar com ela, pois na vizinhança as pessoas nem sempre a cumprimentavam, nem mesmo os zeladores e serventes. Mas ele diminuiu a marcha e parou em frente à janela.

– Fiquei sabendo – disse, acenando triste com a cabeça. – Que horror, que horror.

– Nem me fale – respondeu a senhora –, nem me fale.

– Quando foi?

– No dia em que veio aquela tempestade. De noite já não reconhecia o pai. Ficou lá na clínica. No dia seguinte foi o velório.

– Mas o que foi que ele tinha?

– Febre – disse a senhora, com os olhos secos, sem resquícios de lágrimas. – Uma febre muito alta. Reclamou de dor de cabeça.

– E não costumava adoecer?

– Nunca tinha ficado um dia de cama.

– Que horror – acenou Wilcsek com a cabeça –, que horror.

 

11

 

O primeiro de setembro trouxe chuva. Choveu por semanas. A lama cobriu a pequena rua em L; os sapatos chapinhavam no solo argiloso da calçada. O gramado, torrado pelo sol, ficou careca. Depois veio a neve. O gramado ficou coberto. Ninguém diria que ali, no verão, jogavam bola e faziam algazarra.

Wilcsek passou o inverno desenhando. Nada o incomodava.

 

12

 

Antes do Natal, o servente colocou o punho diante do nariz da esposa. Em seguida, abriu os dedos.

– Olhe isso aqui.

Na palma de sua mão, uma nota de vinte pengő.

– Quem lhe deu? – perguntou a senhora.

– O senhor Wilcsek. Ele passou aqui em casa para nos desejar um Natal tranqüilo.

Os dois ficaram surpresos, pois Wilcsek nunca contratara seus serviços.

– Ele falou sobre o Feri – acrescentou o servente. – Ele sempre fala sobre o Feri comigo.

Por um instante, ambos se calaram. A senhora preparava a janta, no escuro. Despejou a cebola picada na gordura crepitante.

– Ele é um bom homem – disse a senhora, pensativa. – Adora as crianças. Também adorava o nosso Feri.

Inauguração & Primeira Tradução

sábado, 24 fevereiro, 2007

Depois de fazer algumas promessas não muito convincentes na comunidade Tradutores/Intérpretes BR do Orkut, eis que finalmente surge meu blog. É minha primeira vez, então desculpem a falta de jeito…

Bom, os colegas do Orkut já sabem, mas é bom inteirar os recém-chegados do que se passa: estou desde setembro passado morando na Hungria, com uma bolsa para estudar língua e cultura húngara. O meu objetivo principal, claro, é poder ler nessa língua e traduzir dela. Venho estudando o quanto posso e me exercitando com textos que me agradam, e há algumas semanas comecei uma cadeira de tradução para a qual terei de traduzir textos variados. Aqui no blog, pretendo postar o resultado deste trabalho.

O porquê são, na verdade, vários. Quando descobri a literatura húngara – mesmo ainda conhecendo pouco dela –, senti que eu havia topado com algo diferente e extraordinário. Espero que ao ler minhas traduções os (eventuais) leitores possam ter contato com algo novo, diferente e agradável. Além disso, gostaria mesmo de ouvir opiniões a respeito do meu trabalho, em especial de tradutores e outras gentes que se ocupem de literatura e crítica literária (esse últimos, apenas se não forem chatos demais). Vale ressaltar que as traduções são, por enquanto, um trabalho em progresso; se eu achasse que tudo já está perfeito e acabado, não precisaria ouvir ninguém. Assim, é especialmente importante para mim que vocês, (eventuais!) leitores, ao fazer comentários, não se limitem a dizer “gostei” ou “não gostei” — por favor, tentem pôr isso em termos tais que me permitam repensar o que estou fazendo. Por último, estou preparando, como meu projeto de estudos aqui, uma pequena coletânea de contos do Kosztolányi Dezső. Se (acaso dos acasos) alguma editora estiver interessada em publicá-la, por favor, sintam-se à vontade para entrar em contato.

A primeira tradução a ser publicada aqui é um conto de Hamvas Béla que traduzi para minha aula de exercícios em tradução literária – “O Lanche do Bom Deus”:

O Lanche do Bom Deus

(“A Jóisten Uzsonnája”)

 

História de Hamvas Béla

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

Junho é o mês vermelho. Como maio é verde, e agosto, amarelo-ouro. Em junho as tulipas florescem. Vermelho é o Pentecostes, quando o Espírito Santo aparece na terra sob a forma de línguas de fogo vermelhas. O mês das frutas vermelhas: cerejas, ginjas, morangos, framboesas, groselhas. É um deslumbre sem fim, pois esse não é um vermelho selvagem e agressivo. Essas frutas não lançam desafio algum, pelo contrário; há nelas um quê de riso puro. Um vermelho delicado como o dos bebês: essa é a cor dos primeiros frutos do ano.

Em junho é preciso comer. Para meio quilo de morangos bem maduros, costuma-se calcular 100-150 gramas de açúcar de confeiteiro. A opinião mais difundida é a de que o melhor é dispor os morangos e o açúcar em camadas, espremendo um pouco as frutas, só porque assim elas soltam mais caldo. Quando estiverem prontas, devem ser cobertas com duzentos gramas de coalhada. Essa quantidade pode ser levemente aumentada ou diminuída a gosto, mas o exagero deve ser evitado. Muitos preferem usar creme de leite, mas essas pessoas não compreendem a essência da receita. Junho não é o mês da doçura penetrante, mas das frutas frescas e levemente ácidas. Usar creme de leite é um equívoco. Mais tarde, para o final do mês, já é admissível utilizá-lo com morangos silvestres, e há quem não coma nada além de creme de leite com framboesas – especialmente com a compota de framboesas que acompanha o arroz-de-leite. Esse uso é correto, mas o creme de leite com morangos comuns denuncia mau gosto. O mau gosto resulta em mau julgamento, e este, por sua vez, em má conduta; assim, é importante evitar o uso impróprio.

Quanto ao modo de preparo, há quem disponha os morangos, o açúcar e a coalhada em camadas, fazendo antes um pequeno corte nos morangos. Outros deixam as frutas inteiras e as cobrem de coalhada, deixando que esta escorra, dissolva o açúcar e extraia o suco dos morangos. No fundo do recipiente acumula-se um líquido de cor rosada, e o mais apropriado é que, após comer os morangos, este seja consumido não com uma colher, mas sim como bebida. É o modo perfeito de terminar a refeição.

Os ímpios colocam os morangos com coalhada na geladeira e resfriam-nos artificialmente. Devemos nos insurgir contra essa prática com a maior firmeza possível. Abaixo de uma certa temperatura, as frutas perdem o sabor, como o vinho. A temperatura exata é a que se encontra em uma adega. Na ausência desta, é possível colocar o recipiente (de preferência um recipiente de cerâmica: os de metal devem ser evitados) em um poço e deixá-lo descansar lá dentro por algumas horas. O ideal é preparar os morangos pela manhã, quando ainda estão frescos da colheita, em torno das dez horas, e mantê-los em local fresco até as três, três e meia da tarde. Pois o momento clássico para o consumo dos morangos com coalhada é quando o calor do meio-dia já passou e o dia começa a esfriar, ou seja, três e meia. O Bom Deus, ao acordar da sesta, come os morangos nesse horário. São colocados na sombra do terraço, com a nogueira se inclinando por sobre a mesa, e lá o Bom Deus os come com uma colher de sobremesa, antes de tornar às videiras. Pois caso alguém não saiba, o Bom Deus se ocupa com a atividade de mais alta ordem no mundo, ou seja, a viticultura. Depois da refeição, Ele sai de barriga e espírito tranqüilos, mete a ráfia na cintura, põe a tesoura de poda no bolso, pega na enxada e parte rumo ao vinhedo, para podar os brotos irregulares, endireitar as vergas frouxas e capinar as macegas que encontra pela frente.