Molnár Ferenc e algumas boas novas

segunda-feira, 28 maio, 2007

Em mais um update que demorou mais do que eu gostaria para sair, posto um conto do Molnár Ferenc. Esse não foi traduzido para a aula: peguei uns três ou quatro desses contos dialogados e os traduzi como exercício. Gosto do estilo irônico e sarcástico. Se o pessoal também gostar, faço uma revisão caprichada nos outros e os posto também.

No mais, além da resposta positiva que tenho recebido aqui no blog, tenho a alegria de comunicar aos leitores que a tradução do conto do Kosztolányi Dezső que postei um tempo atrás (“Feri”) tirou primeiro lugar em um concurso multilíngüe de tradução, promovido pela Magyar Fordítóház (Casa do Tradutor Húngaro). O prêmio é uma estadia de uma semana na casa, em Balatonfüred, para onde em breve parto. Lá também vou participar da festa de lançamento do Füredi Fordítói Füzetek, um periódico anual com traduções de obras de autores húngaros em mais ou menos vinte línguas. A edição deste ano vai incluir minha tradução de “Não Matarás”, da Radics Viktoria, além de traduções para outros dezessete idiomas.

Boa leitura e não deixem de postar comentários, que sempre leio com a maior atenção!

 

A Borracha Bicolor

(“A dupla Radírgumi”)

De Molnár Ferenc

Tradução de Guilherme Braga

 

Personagens: pai e filho. O menino tem seis anos. A cena se passa no escritório do pai. Sobre a escrivaninha, uma borracha composta de duas partes. Uma delas é cinza-claro, a outra, cinza-escuro. A parte clara serve para apagar escrita a lápis, enquanto a parte escura destina-se a apagar tinta. O pai fala em tom sério, enquanto mexe na borracha.

 

O PAI: Então você só veio para casa às seis horas.

O FILHO: Sim.

O PAI: E disse que a professora só chegaria às seis.

O FILHO: Sim.

O PAI: Filho, escute. A professora veio às cinco, e ficou aqui sentada, esperando. Portanto, você mentiu.

O FILHO percebe a borracha.

O PAI: Você mentiu.

O FILHO olhando para a borracha: É.

O PAI: Você mentiu, filho, e isso já é um grande problema por si mesmo. Mas ainda por cima sua mentira foi desajeitada; afinal, você sabia que a professora viria às cinco horas e então iríamos descobrir tudo. Por que você fez isso?

O FILHO pensando em voz alta: Sei que o lado claro serve para apagar mas não sei para que serve o lado escuro. Nunca vi uma borracha assim.

O PAI: Responda.

O FILHO: Ã?

O PAI: Responda por que você fez isso.

O FILHO: Sim. Pensando em voz alta: Será que é colada? Não pode. Ou pintada com uma tinta escura? Também não. Mas então, como é que uma metade é clara, e a outra, escura?

O PAI: Ora, não precisa ficar tão preocupado, filho. Eu não mordo. Responda sem medo, como um homem. Olhe nos meus olhos. Não precisa ter medo. Eu não vou castigar você, apenas chamar sua atenção. A coisa mais inteligente a se fazer nessa vida é sempre falar a verdade. Olhe nos meus olhos. Não precisa ter medo. Por que você mentiu?

O FILHO: Porque… porque… Pensando em voz alta: a metade escura não serve para segurar a borracha, porque ali também está gasto, como se tivessem usado aquela parte para apagar. Então aquilo também é borracha. Mas essa ponta deve ser de alguma borracha especial, senão ela não seria de outra cor.

O PAI para si mesmo: O garoto tem muita auto-estima e é muito honesto. Vejam só, estou falando com ele em um tom amigável, mais amigável impossível, e mesmo assim ele está sendo vago, responde perturbado. Eu sou uma grande influência para ele. Digamos que no meu olhar há um certo rigor que me fez famoso em minha carreira de juiz. Os réus também ficam perturbados se olho demais para eles. Mas bem, agora não sou um juiz, e não estou diante de um réu. É o meu filho. Preciso tratá-lo de um jeito mais amigável. Amigavelmente: Filho querido, você se arrepende de ter mentido?

O FILHO: Me arrependo. Pensando em voz alta: Me arrependo de tudo, confesso tudo, peço desculpas, peço o que você quiser, desde que isso acabe de uma vez. E assim que você sair, vou dar uma boa olhada nessa borracha.

O PAI: Promete não mentir mais?

O FILHO: Prometo.

O PAI: Então dessa vez você vai escapar do castigo, filho. Mas, para que você não esqueça esse dia, você vai escrever cem vezes: “Não devo mentir jamais”.

O FILHO: A lápis ou a caneta?

O PAI: A caneta. Mas, filho, estou vendo que você é um menino honesto, que nem protestou contra o castigo. Então, se você pedir desculpas bem bonito, também não precisa escrever a frase cem vezes. Pensando em voz alta: Preciso tratar meu filho com carinho. Ele é um bom menino. Eu também era assim.

O FILHO pensando em voz alta: Lá se foi a borracha.

O PAI: O quê?

O FILHO: Prefiro escrever, papai.

O PAI: Como? Não vai pedir desculpas?

O FILHO: Não.

O PAI para si mesmo: Igualzinho a mim. Igualzinho a mim. Ele não precisa de uma caridade que abuse de sua auto-estima. Eu também era assim. Mas, como pai, não posso admitir uma coisa dessas. Dirigindo-se ao filho: Não vai pedir desculpas? Você não vê que fez uma coisa errada?

O FILHO para si mesmo: Com certeza a borracha apaga tinta muito bem. Mas também vou tentar apagar o lápis com a ponta escura.

O PAI: Filho, responda. Calar-se é um ato de coragem, mas não há por que fazer isso diante do seu pai. O pai não é apenas juiz, mas também seu amigo.

O FILHO para si mesmo: Se eu disser uma única palavra, ele já desiste do castigo, e aí não vou poder ficar na escrivaninha. Mas eu vou pegar uma faca e cortar um pedacinho, bem pequeninho, para ele não perceber.

O PAI: Você não confia em mim?

O FILHO para si mesmo: E aí vou sujar o lugar onde eu cortei com o dedo, para ele não ver o corte.

O PAI: Mas como você é persistente! Muito bem. Satisfeito, para si mesmo: Eu também era assim, eu também era assim.

O FILHO: Papai, eu…

O PAI: Sim?

O FILHO: Eu vou escrever as cem vezes.

O PAI para si: Não posso dispensá-lo do castigo. Fico feliz por ele não ter pedido desculpas, mas agora ele precisa escrever as cem vezes. Eu também preferia agüentar o castigo a me humilhar. Ao filho, sério: Então você vai escrever agora mesmo “não devo mentir jamais” cem vezes. E só vai jantar depois de terminar as cem!

O FILHO: Cinqüenta a lápis e cinqüenta a caneta.

O PAI: Pouco importa. Agora você vai sentar aí na mesa, e não me apareça na sala de jantar enquanto não estiver pronto. Vamos lá. O menino se senta. O pai se dirige à porta.

O PAI para si: Ele nem piscou. Estava alegre, inclusive. Fico feliz por ele não ter se humilhado. Estou satisfeito. Esse garoto tem um grande caráter! Sai.

O FILHO para si: Finalmente! Uma hora mais tarde.

O PAI: E Então? Pronto?

O FILHO: Pronto, papai. Só que me enganei e escrevi a mais. Escrevi cento e dez vezes. Mas agora mesmo vou apagar essas dez. Cinco a lápis e cinco a caneta. Apaga com o rosto corado de prazer.

O PAI para si: Quanta exatidão, quanta organização, quanta meticulosidade! Personalidade, auto-estima, obstinação masculina e meticulosidade… exatamente como eu, exatamente como eu. Vou fazer dele um juiz! Feliz, beija a cabeça do filho.

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Conto Erótico: Radics Viktoria

segunda-feira, 16 abril, 2007

Eis a nova tradução: um trecho do conto Ne Ölj! (“Não Matarás”), de Radics Viktoria, publicado em uma antologia de literatura contemporânea chamada Éjszakai Állatkert, cujo tema é a sexualidade feminina. Foi meio que um golpe de sorte, pois o tema tem tudo a ver com o livro que atualmente traduzindo do inglês – então eu já estava no clima – e, de quebra, a tradução vai (pelo que tudo indica) ser publicada no Füredi Fordítói Füzetek, um caderno anual que traz sempre o texto de um escritor húngaro na língua original e em mais ou menos vinte outros idiomas.

Mesmo assim, a tradução demorou outra vez, pois foi um tanto cheia de particularidades (e nesse ponto aviso que vou discutir algumas o texto e a tradução: quem quiser fazer uma leitura com jeito de surpresa, pare de ler minhas divagações por aqui mesmo, leia o texto e continue lendo os comentários depois. De modo bem sucinto e drástico, SPOILERS AHEAD!).

Como se não bastassem alguns problemas, digamos, “normais” da tradução literária – trocadilhos, imagens difusas, metáforas e insinuações diversas –, dessa vez apareceu um problema com o qual eu ainda não havia me deparado: citações diretas e “mexidas” de um cânone literário estrangeiro e absolutamente desconhecido do leitor-alvo, como, no caso, a poesia húngara. Por citação “mexida”, refiro-me a uma distorção de um verso ou citação conhecida, que para as pessoas do ambiente cultural onde a obra original foi criada é instantaneamente reconhecível – imaginem algo como

Minha terra tem pedreiras

Onde plantam jatobá

 

ou

 

Mas que seja esquisito enquanto dure

 

Não preciso dizer que isso foi provavelmente o que mais tomou tempo, já que não se tratava apenas de traduzir, mas também de decidir o que fazer. Notas de rodapé, como sempre, estavam fora de cogitação – detesto. Ademais, pesquisei mas não achei traduções para o português dos versos citados, o que significa que eu teria dois problemas: (1) de alguma forma dar a entender que se trata de uma citação e (2) de alguma forma dar a entender que a citação fora “mexida”. Para os versos citados diretamente, bastaria traduzir e de algum modo sinalizar. Mas como “mexer” em uma citação que sequer existe em português? Após alguns dias quebrando a cabeça, cheguei a uma solução que me pareceu razoável: traduzi o verso original e depois dei um jeito de mexer nele de modo que remetesse à minha própria tradução dele. Claro, como a minha tradução “direta” do verso não está publicada em lugar nenhum e ninguém a conhece, o mecanismo de referência não funciona, mas pelo menos me pareceu uma saída razoável e metodologicamente correta.

Quanto a sinalizar as citações para o leitor, o próprio texto acabou me dando uma solução. Lá pelas tantas a autora cita diretamente um verso e escreve, entre parênteses, lopott idézet – em bom português, “citação roubada”. Bom, aqui a autora sinalizara uma delas, mas eu precisava sinalizar também as outras pelos motivos explicitados acima. A solução foi traduzir por “mais uma citação roubada”, o que me pareceu apropriado.

Não vou me estender demais aqui, mas de repente em outra oportunidade me aprofundo mais um pouco em relação a como fiz esta tradução. Outras dificuldades incluíram um trocadilho e alusões não-intertextuais, que não vou explicar para dar um pouco de trabalho ao meu leitor e também porque creio estarem visíveis no texto em português. Boa leitura!

 

Não Matarás

(“Ne Ölj!”)

 

Do texto de Radics Viktoria

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

A mágoa cigana lhe tolda o olhar – não resta dúvida. Os lábios ciganos, a pele violeta-cigano, bronzeada, as ondas azuis sob os olhos e a sina crioula. (Ou melhor: como alguém que passou dois meses de férias no Adriático.) A vida cigana atrás, dentro, abaixo dele – só não acima, pois lá o firmamento divino fulgura. Os cabelos brancos. Como nos contos-de-fada, digo, intelectual malvada que sou: a choça, a mãe pedinte, a sopa de cenoura, as brigas, as facadas, o crime, a tosquia de ovelhas, o submundo de Budapeste e, claro, a prisão, como não podia deixar de ser; a pedreira… “Foste traído por tanto te amarem, Traíste e agora não podes amar”; o dinheiro, as cartas, a redenção. Literata estúpida, ouço as histórias do submundo boquiaberta. No velho Škoda, passamos em frente a uma igreja evangélica. “Entramos ali uma vez”, diz ele, apontando para o escritório, “e só achamos um computador velho e uns 30 mil forintes. Mas enfim, que se dane!”

 

Vejo despertar no cigano um sentimento muito similar ao meu. Vibramos – uma harpa eólica em meu coração, o dele palpita, “Minha alma-rapina as grades partiu” (ad notam: “Já não se imagina em meio ao vazio”), aconchegamo-nos um no outro, me escondo por baixo da pele cor de café; minha brancura o agrada, bebo, bebo, bebo o néctar oculto entre seus lábios, a língua, as palavras, o mosto da montanha. Você fica muito bem aí; em meio às folhas da videira, o cacho escuro, que tomo na minha mão, como as uvas, desfaz-se, beijo as bagas, como-as no cacho, enfio meu rosto, meu nariz – e minha garganta também está alegre, ungida e honrada.

 

Ele traz muitas tolices dentro de si, claro, dogmas e mais dogmas, como remendos e mais remendos, ainda que não remende ou conserte tachos e caçarolas, mas idéias carolas – eu teria pulado no pescoço de qualquer outra pessoa, mas dele eu tolero (ainda que me desagrade) e sinto justamente que, no fim das contas, não sei nada. Me agarro a um destroço podre no mar pós-moderno. Tudo é em vão, meu conhecimento acumulado ao longo de trinta anos não é nada. Ele que tente se endireitar. Mesmo quem sofre o preconceito de todos também é cheio de preconceitos (o que, aliás, parece ser uma regra). Cretinices absurdas saem de sua boca. Da minha também; sou cheia de clichês intelectuais. “Minha professorinha.” Às vezes fala como se houvesse perdido sangue; perde a cabeça, beira a agressão (“puxe logo a faca”, digo, mas ainda assim começo a dar risada) e fala contra os homossexuais e contra as mulheres – contra as mulheres, enquanto percebo que ele me ama; contra a concupiscência, enquanto ele tem vontade de trepar comigo até o dia raiar, de tudo quanto é jeito, mesmo antes do “casamento”. Os veados, na exclusão, recorrem a seus semelhantes – e as mulheres, óbvio, são os bodes expiatórios. É claro que tudo isso vem da igreja. Insuportável.

 

Levanto-me de imediato: deixo-o por aqui mesmo, e ele que se dane e me mate, animal estúpido; vamos virar balada. “Eu te desejo como um bicho.” Bruto, estúpido. “Diz ‘pau’.” Não digo. “Vou te foder tanto, mas tanto!”, cochicha ele, excitado, logo depois de afirmar que as mulheres são todas como Jezebel – a ruína e a destruição dos homens, feiticeiras cruéis e ímpias – e de fazer pouco caso da emancipação feminina. Agora só falta dizer que sou puta por estar com ele; mas nesse ponto ele fica pensativo.

– Ontem você me ofendeu, insultou o meu sexo – digo ao telefone. – Eu não fico ridicularizando os homens!

Sim, chegamos a esse ponto. Estou pasma.

 

Não me incomoda que às vezes ele seja tão artificialmente imbecil, pois no fundo sinto o palpitar belo de seu intelecto natural, envolto em pele de leopardo; eu também sou estúpida, cretina e louca – afinal, o que foi que aprendi com aqueles milhares de livros? No fim, menos do que ele aprendeu com apenas um. Como se ele houvesse freqüentado uma academia aeterna, treinado a língua com a Bíblia de Károli, lido um único livro com todo o coração, enquanto eu li mil de má vontade. Sem falar das diferenças entre nossas experiências. Mas no fim aprendi pelo menos a prestar atenção – ou será que nem isso? Observar, prestar atenção e perceber, farejar, tocar e sentir… É para isso que rezo. Pela verdade, não para que os meus conceitos triunfem, mas Ele, pela palavra. Eu não passo de uma rata de biblioteca, um ornitorrinco, um emaranhado de miolos femininos, e já fui um pouco amada por causa disso – um pouco, que fique bem claro.

Ele também nunca foi amado de verdade. Um garoto cigano de 47 anos, humilhado. “Você nunca vai ser ninguém” – e ele apanhava e brigava, jogava um carteado, roubava, saqueava, batia e furava para isso, como um espinho ao outro (mais uma citação roubada). E eu falhei, machuquei a mim e aos outros, traí ser humano e consciência. Talvez o que para ele foi acaso, para mim tenha sido arte? Perdemos tudo.

Ninguém nos ama.