Örkény István e um conto-minuto

quarta-feira, 13 junho, 2007

Pela primeira vez acho que consigo fazer uma atualização num espaço de tempo decente, graças ao tempo livre de que tenho desfrutado nos últimos dias. A bola da vez é um conto do Örkeny István; para quem se interessar, recomendo o livro editado pela Editora 34 chamado A Exposição das Rosas, traduzido por Aleksandar Jovanov. Na época eu ainda sabia muito pouco húngaro e portanto não tenho nada a dizer sobre a tradução como tal, mas me lembro que o texto em português é bom. Este livro contém duas novelas curtinhas e geniais (especialmente a própria “A Exposição das Rosas”), mas Örkény é famoso por levar essa brevidade da novela e do conto ao extremo, sob a forma de egyperces novella, ou seja, conto-minuto. A idéia é essa mesma: escrever um conto que o leitor possa terminar em menos de um minuto. Örkény, para atingir essa brevidade, deu grande importância aos títulos, e no prefácio aos contos-minuto escreve que “Devemos prestar atenção aos títulos. O autor buscou a concisão, e assim não pôde dar títulos irrelevantes. Antes de pegarmos um bonde, precisamos conferir seu número. Os títulos desses contos têm a mesma importância.” Talvez isso explique o nome monstruoso do curto texto que traduzi, que por si só já dá uma bela ajuda para interpretá-lo.

Há quem vá achar absurdo, não tenho dúvida – o que não deve ser um problema. Como o próprio Örkény também escreveu, “Quem não entender alguma coisa, leia mais uma vez a história problemática. Se continuar sem entender, então há algum problema com o conto.”

De qualquer forma, espero que não haja nenhum.

Boa leitura e, como sempre, escrevam, escrevam.

Muitas vezes nos entendemos bem nos assuntos mais complicados, mas acontece de não nos entendermos nas questões mais simples

(“Sokszor a legbonyolultabb dolgokban is jól megértjük egymást, de előfordul, hogy egészen egyszerű kérdésekben nem”)

 

História de Örkény István

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

– Bom dia. É aqui que vocês alugam colchões infláveis?

– O que o senhor disse?

– Não é aqui? Me disseram que neste estande verde era o depósito do Ministério de Comércio Interior.

– E aqui é o depósito do Ministério de Comércio Interior. Mas nós só alugamos cadeiras reclináveis, esquis aquáticos e colchões infláveis.

– Ótimo. Dois colchões infláveis então, por favor.

– Não entendo uma palavra do que o senhor está dizendo. Sprechen Sie Deutsch?

– Nicht Deutsch.

– Eu também falo um poquinho de francês. Vu sprechen francê?

– Nicht francê.

– Mas afinal em que língua podemos conversar?

– Desculpe, mas eu só falo húngaro.

– Muito bem. Mas então por que o senhor não fala húngaro de uma vez?

– Como assim? Sou húngaro, nasci húngaro e só sei falar húngaro. Quanto custa o aluguel do colchão inflável?

– Por favor, não me venha com essa conversa. Sou apenas uma estudante de filosofia e história. Estou no terceiro ano e, agora no verão, vim aqui ganhar um dinheirinho.

– Fez muito bem.

– Passo a metade do dia trabalhando, e a outra metade na praia. E para sua informação, aquele ali tomando banho de sol é o meu namorado, e ele está no time de pentatlo.

– Mas por que você está falando assim, nesse tom de voz?

– Porque aqui nós só alugamos cadeiras reclináveis, esquis aquáticos e colchões infláveis. Se o senhor tem segundas intenções, veio ao lugar errado.

– Não tenho segundas intenções. Acredite, quero apenas alugar dois colchões infláveis.

– Bei uns ist vollkommene Glaubensfreiheit.

– O que você disse?

– Que aqui há liberdade religiosa. Os estrangeiros costumam perguntar se é possível ir à missa aos domingos.

– Preste atenção, por favor. Você estudou lógica. Vamos tentar nos entender em termos lógicos.

– Que língua estranha essa que o senhor fala! Em húngaro também dizemos “lógico”.

– Já que tocamos no assunto da liberdade religiosa… posso saber se você acredita em Deus?

– Só no sentido kierkegaardiano: acredito na realização. O senhor entende ao que me refiro?

– Mais ou menos. Para alguém flutuar a mais de 140 mil metros e ainda assim ser feliz… Você conhece Teilhard de Chardin?

– Não era leitura obrigatória, mas li dois livros dele em alemão.

– E o que você achou?

– A primeira vez que li, fiquei pasma. Eu disse “crianças, eis aqui o gênio da modernidade”… Mas depois, justo na questão decisiva, quando ele começa a unificar a religião e a ciência, ele se perde completamente.

– Interessante. Grosso modo, é o que eu também penso. Mas se nos entendemos tão bem, por que não chegamos a um acordo quanto a essas porcarias de colchões infláveis?

– Vulê vu alugar quelquechoz?

– Ora, por favor. Nós dois podemos pensar em termos racionais. Veja bem: vamos prosseguir por eliminação. O que você diria se eu pedisse duas cadeiras reclináveis?

– Aqui estão, senhor. Temos cadeiras com e sem guarda-sol.

– Muito bem. Mas diga-me, e os esquis aquáticos?

– Temos três tamanhos. Qual o senhor gostaria?

– Nenhum. Na verdade eu gostaria de alugar dois colchões infláveis.

– Dois o quê?

– Uma coisa de cada vez. Parece que não conseguimos nos entender por causa dessas duas palavras.

– Quais?

– Essas duas palavras, juntas. “Colchão” mais “inflável”. Você sabe o que é um colchão? Colchão de casal? Colchão de solteiro?

– Claro.

– Sabe o que significa “inflável”?

– Por favor, não seja ridículo.

– Pois então junte as duas palavras e me dê dois colchões infláveis.

– Creio que o senhor está enganado. Aqui nós só alugamos cadeiras reclináveis, esquis aquáticos e colchões infláveis.

– Peço desculpas, minha jovem.

– Por favor. Não foi nada.

– Até mais.

– Tudo de bom para o senhor.

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