Inauguração & Primeira Tradução

sábado, 24 fevereiro, 2007

Depois de fazer algumas promessas não muito convincentes na comunidade Tradutores/Intérpretes BR do Orkut, eis que finalmente surge meu blog. É minha primeira vez, então desculpem a falta de jeito…

Bom, os colegas do Orkut já sabem, mas é bom inteirar os recém-chegados do que se passa: estou desde setembro passado morando na Hungria, com uma bolsa para estudar língua e cultura húngara. O meu objetivo principal, claro, é poder ler nessa língua e traduzir dela. Venho estudando o quanto posso e me exercitando com textos que me agradam, e há algumas semanas comecei uma cadeira de tradução para a qual terei de traduzir textos variados. Aqui no blog, pretendo postar o resultado deste trabalho.

O porquê são, na verdade, vários. Quando descobri a literatura húngara – mesmo ainda conhecendo pouco dela –, senti que eu havia topado com algo diferente e extraordinário. Espero que ao ler minhas traduções os (eventuais) leitores possam ter contato com algo novo, diferente e agradável. Além disso, gostaria mesmo de ouvir opiniões a respeito do meu trabalho, em especial de tradutores e outras gentes que se ocupem de literatura e crítica literária (esse últimos, apenas se não forem chatos demais). Vale ressaltar que as traduções são, por enquanto, um trabalho em progresso; se eu achasse que tudo já está perfeito e acabado, não precisaria ouvir ninguém. Assim, é especialmente importante para mim que vocês, (eventuais!) leitores, ao fazer comentários, não se limitem a dizer “gostei” ou “não gostei” — por favor, tentem pôr isso em termos tais que me permitam repensar o que estou fazendo. Por último, estou preparando, como meu projeto de estudos aqui, uma pequena coletânea de contos do Kosztolányi Dezső. Se (acaso dos acasos) alguma editora estiver interessada em publicá-la, por favor, sintam-se à vontade para entrar em contato.

A primeira tradução a ser publicada aqui é um conto de Hamvas Béla que traduzi para minha aula de exercícios em tradução literária – “O Lanche do Bom Deus”:

O Lanche do Bom Deus

(“A Jóisten Uzsonnája”)

 

História de Hamvas Béla

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

Junho é o mês vermelho. Como maio é verde, e agosto, amarelo-ouro. Em junho as tulipas florescem. Vermelho é o Pentecostes, quando o Espírito Santo aparece na terra sob a forma de línguas de fogo vermelhas. O mês das frutas vermelhas: cerejas, ginjas, morangos, framboesas, groselhas. É um deslumbre sem fim, pois esse não é um vermelho selvagem e agressivo. Essas frutas não lançam desafio algum, pelo contrário; há nelas um quê de riso puro. Um vermelho delicado como o dos bebês: essa é a cor dos primeiros frutos do ano.

Em junho é preciso comer. Para meio quilo de morangos bem maduros, costuma-se calcular 100-150 gramas de açúcar de confeiteiro. A opinião mais difundida é a de que o melhor é dispor os morangos e o açúcar em camadas, espremendo um pouco as frutas, só porque assim elas soltam mais caldo. Quando estiverem prontas, devem ser cobertas com duzentos gramas de coalhada. Essa quantidade pode ser levemente aumentada ou diminuída a gosto, mas o exagero deve ser evitado. Muitos preferem usar creme de leite, mas essas pessoas não compreendem a essência da receita. Junho não é o mês da doçura penetrante, mas das frutas frescas e levemente ácidas. Usar creme de leite é um equívoco. Mais tarde, para o final do mês, já é admissível utilizá-lo com morangos silvestres, e há quem não coma nada além de creme de leite com framboesas – especialmente com a compota de framboesas que acompanha o arroz-de-leite. Esse uso é correto, mas o creme de leite com morangos comuns denuncia mau gosto. O mau gosto resulta em mau julgamento, e este, por sua vez, em má conduta; assim, é importante evitar o uso impróprio.

Quanto ao modo de preparo, há quem disponha os morangos, o açúcar e a coalhada em camadas, fazendo antes um pequeno corte nos morangos. Outros deixam as frutas inteiras e as cobrem de coalhada, deixando que esta escorra, dissolva o açúcar e extraia o suco dos morangos. No fundo do recipiente acumula-se um líquido de cor rosada, e o mais apropriado é que, após comer os morangos, este seja consumido não com uma colher, mas sim como bebida. É o modo perfeito de terminar a refeição.

Os ímpios colocam os morangos com coalhada na geladeira e resfriam-nos artificialmente. Devemos nos insurgir contra essa prática com a maior firmeza possível. Abaixo de uma certa temperatura, as frutas perdem o sabor, como o vinho. A temperatura exata é a que se encontra em uma adega. Na ausência desta, é possível colocar o recipiente (de preferência um recipiente de cerâmica: os de metal devem ser evitados) em um poço e deixá-lo descansar lá dentro por algumas horas. O ideal é preparar os morangos pela manhã, quando ainda estão frescos da colheita, em torno das dez horas, e mantê-los em local fresco até as três, três e meia da tarde. Pois o momento clássico para o consumo dos morangos com coalhada é quando o calor do meio-dia já passou e o dia começa a esfriar, ou seja, três e meia. O Bom Deus, ao acordar da sesta, come os morangos nesse horário. São colocados na sombra do terraço, com a nogueira se inclinando por sobre a mesa, e lá o Bom Deus os come com uma colher de sobremesa, antes de tornar às videiras. Pois caso alguém não saiba, o Bom Deus se ocupa com a atividade de mais alta ordem no mundo, ou seja, a viticultura. Depois da refeição, Ele sai de barriga e espírito tranqüilos, mete a ráfia na cintura, põe a tesoura de poda no bolso, pega na enxada e parte rumo ao vinhedo, para podar os brotos irregulares, endireitar as vergas frouxas e capinar as macegas que encontra pela frente.