Conto Erótico: Radics Viktoria

segunda-feira, 16 abril, 2007

Eis a nova tradução: um trecho do conto Ne Ölj! (“Não Matarás”), de Radics Viktoria, publicado em uma antologia de literatura contemporânea chamada Éjszakai Állatkert, cujo tema é a sexualidade feminina. Foi meio que um golpe de sorte, pois o tema tem tudo a ver com o livro que atualmente traduzindo do inglês – então eu já estava no clima – e, de quebra, a tradução vai (pelo que tudo indica) ser publicada no Füredi Fordítói Füzetek, um caderno anual que traz sempre o texto de um escritor húngaro na língua original e em mais ou menos vinte outros idiomas.

Mesmo assim, a tradução demorou outra vez, pois foi um tanto cheia de particularidades (e nesse ponto aviso que vou discutir algumas o texto e a tradução: quem quiser fazer uma leitura com jeito de surpresa, pare de ler minhas divagações por aqui mesmo, leia o texto e continue lendo os comentários depois. De modo bem sucinto e drástico, SPOILERS AHEAD!).

Como se não bastassem alguns problemas, digamos, “normais” da tradução literária – trocadilhos, imagens difusas, metáforas e insinuações diversas –, dessa vez apareceu um problema com o qual eu ainda não havia me deparado: citações diretas e “mexidas” de um cânone literário estrangeiro e absolutamente desconhecido do leitor-alvo, como, no caso, a poesia húngara. Por citação “mexida”, refiro-me a uma distorção de um verso ou citação conhecida, que para as pessoas do ambiente cultural onde a obra original foi criada é instantaneamente reconhecível – imaginem algo como

Minha terra tem pedreiras

Onde plantam jatobá

 

ou

 

Mas que seja esquisito enquanto dure

 

Não preciso dizer que isso foi provavelmente o que mais tomou tempo, já que não se tratava apenas de traduzir, mas também de decidir o que fazer. Notas de rodapé, como sempre, estavam fora de cogitação – detesto. Ademais, pesquisei mas não achei traduções para o português dos versos citados, o que significa que eu teria dois problemas: (1) de alguma forma dar a entender que se trata de uma citação e (2) de alguma forma dar a entender que a citação fora “mexida”. Para os versos citados diretamente, bastaria traduzir e de algum modo sinalizar. Mas como “mexer” em uma citação que sequer existe em português? Após alguns dias quebrando a cabeça, cheguei a uma solução que me pareceu razoável: traduzi o verso original e depois dei um jeito de mexer nele de modo que remetesse à minha própria tradução dele. Claro, como a minha tradução “direta” do verso não está publicada em lugar nenhum e ninguém a conhece, o mecanismo de referência não funciona, mas pelo menos me pareceu uma saída razoável e metodologicamente correta.

Quanto a sinalizar as citações para o leitor, o próprio texto acabou me dando uma solução. Lá pelas tantas a autora cita diretamente um verso e escreve, entre parênteses, lopott idézet – em bom português, “citação roubada”. Bom, aqui a autora sinalizara uma delas, mas eu precisava sinalizar também as outras pelos motivos explicitados acima. A solução foi traduzir por “mais uma citação roubada”, o que me pareceu apropriado.

Não vou me estender demais aqui, mas de repente em outra oportunidade me aprofundo mais um pouco em relação a como fiz esta tradução. Outras dificuldades incluíram um trocadilho e alusões não-intertextuais, que não vou explicar para dar um pouco de trabalho ao meu leitor e também porque creio estarem visíveis no texto em português. Boa leitura!

 

Não Matarás

(“Ne Ölj!”)

 

Do texto de Radics Viktoria

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

A mágoa cigana lhe tolda o olhar – não resta dúvida. Os lábios ciganos, a pele violeta-cigano, bronzeada, as ondas azuis sob os olhos e a sina crioula. (Ou melhor: como alguém que passou dois meses de férias no Adriático.) A vida cigana atrás, dentro, abaixo dele – só não acima, pois lá o firmamento divino fulgura. Os cabelos brancos. Como nos contos-de-fada, digo, intelectual malvada que sou: a choça, a mãe pedinte, a sopa de cenoura, as brigas, as facadas, o crime, a tosquia de ovelhas, o submundo de Budapeste e, claro, a prisão, como não podia deixar de ser; a pedreira… “Foste traído por tanto te amarem, Traíste e agora não podes amar”; o dinheiro, as cartas, a redenção. Literata estúpida, ouço as histórias do submundo boquiaberta. No velho Škoda, passamos em frente a uma igreja evangélica. “Entramos ali uma vez”, diz ele, apontando para o escritório, “e só achamos um computador velho e uns 30 mil forintes. Mas enfim, que se dane!”

 

Vejo despertar no cigano um sentimento muito similar ao meu. Vibramos – uma harpa eólica em meu coração, o dele palpita, “Minha alma-rapina as grades partiu” (ad notam: “Já não se imagina em meio ao vazio”), aconchegamo-nos um no outro, me escondo por baixo da pele cor de café; minha brancura o agrada, bebo, bebo, bebo o néctar oculto entre seus lábios, a língua, as palavras, o mosto da montanha. Você fica muito bem aí; em meio às folhas da videira, o cacho escuro, que tomo na minha mão, como as uvas, desfaz-se, beijo as bagas, como-as no cacho, enfio meu rosto, meu nariz – e minha garganta também está alegre, ungida e honrada.

 

Ele traz muitas tolices dentro de si, claro, dogmas e mais dogmas, como remendos e mais remendos, ainda que não remende ou conserte tachos e caçarolas, mas idéias carolas – eu teria pulado no pescoço de qualquer outra pessoa, mas dele eu tolero (ainda que me desagrade) e sinto justamente que, no fim das contas, não sei nada. Me agarro a um destroço podre no mar pós-moderno. Tudo é em vão, meu conhecimento acumulado ao longo de trinta anos não é nada. Ele que tente se endireitar. Mesmo quem sofre o preconceito de todos também é cheio de preconceitos (o que, aliás, parece ser uma regra). Cretinices absurdas saem de sua boca. Da minha também; sou cheia de clichês intelectuais. “Minha professorinha.” Às vezes fala como se houvesse perdido sangue; perde a cabeça, beira a agressão (“puxe logo a faca”, digo, mas ainda assim começo a dar risada) e fala contra os homossexuais e contra as mulheres – contra as mulheres, enquanto percebo que ele me ama; contra a concupiscência, enquanto ele tem vontade de trepar comigo até o dia raiar, de tudo quanto é jeito, mesmo antes do “casamento”. Os veados, na exclusão, recorrem a seus semelhantes – e as mulheres, óbvio, são os bodes expiatórios. É claro que tudo isso vem da igreja. Insuportável.

 

Levanto-me de imediato: deixo-o por aqui mesmo, e ele que se dane e me mate, animal estúpido; vamos virar balada. “Eu te desejo como um bicho.” Bruto, estúpido. “Diz ‘pau’.” Não digo. “Vou te foder tanto, mas tanto!”, cochicha ele, excitado, logo depois de afirmar que as mulheres são todas como Jezebel – a ruína e a destruição dos homens, feiticeiras cruéis e ímpias – e de fazer pouco caso da emancipação feminina. Agora só falta dizer que sou puta por estar com ele; mas nesse ponto ele fica pensativo.

– Ontem você me ofendeu, insultou o meu sexo – digo ao telefone. – Eu não fico ridicularizando os homens!

Sim, chegamos a esse ponto. Estou pasma.

 

Não me incomoda que às vezes ele seja tão artificialmente imbecil, pois no fundo sinto o palpitar belo de seu intelecto natural, envolto em pele de leopardo; eu também sou estúpida, cretina e louca – afinal, o que foi que aprendi com aqueles milhares de livros? No fim, menos do que ele aprendeu com apenas um. Como se ele houvesse freqüentado uma academia aeterna, treinado a língua com a Bíblia de Károli, lido um único livro com todo o coração, enquanto eu li mil de má vontade. Sem falar das diferenças entre nossas experiências. Mas no fim aprendi pelo menos a prestar atenção – ou será que nem isso? Observar, prestar atenção e perceber, farejar, tocar e sentir… É para isso que rezo. Pela verdade, não para que os meus conceitos triunfem, mas Ele, pela palavra. Eu não passo de uma rata de biblioteca, um ornitorrinco, um emaranhado de miolos femininos, e já fui um pouco amada por causa disso – um pouco, que fique bem claro.

Ele também nunca foi amado de verdade. Um garoto cigano de 47 anos, humilhado. “Você nunca vai ser ninguém” – e ele apanhava e brigava, jogava um carteado, roubava, saqueava, batia e furava para isso, como um espinho ao outro (mais uma citação roubada). E eu falhei, machuquei a mim e aos outros, traí ser humano e consciência. Talvez o que para ele foi acaso, para mim tenha sido arte? Perdemos tudo.

Ninguém nos ama.

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3 Respostas to “Conto Erótico: Radics Viktoria”

  1. “tachos e caçarolas, mas idéias carolas”
    Havia rima no plural também? Gostei.

    “Minha professorinha.”
    Que esquisito botar as aspas depois do ponto em português.

    “batia e furava”
    Antes disso havia “faca” e facada” no texto. Pensei que você poderia ter usado “esfaquear” ou “apunhalar”. Mas aí não combinaria com o “espinho” que vem a seguir. Não daria para usar “perfurar”? “Perfuração” parece mais neutro em termos de ferimento. Ou o que se quis no original foi “furar”, mesmo, como dizem os populares?

    Isso deve ter dado trabalho. Belo esforço (já que você não quer ouvir “parabéns”)!

    Um grande beijinho!

  2. Gabi said

    Guilherme,

    Adorei!! Nossa, deu até arrepio!

  3. Oi Guilherme

    Desculpe pela nota contraditória, mas para mim não funcionou. Se o leitor não identificar como uma citação, acho que se perde muito da intenção do autor. Achei aquele negócio

    Minha terra tem pedreiras

    Onde plantam jatobá

    ou

    Mas que seja esquisito enquanto dure

    genial e divertido, se quer saber. Vc pensou em trocar as citações de poesia húngara por citações de poesia estrangeira universalmente conhecidas? Pensou também em talvez sinalizar por meio de itálico onde estão as citações, só para marcar melhor ou despertar um interesse especial no leitor? Só algumas idéias que me vêm à mente.

    EM

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