Novo Poema: Tandori Dezső

quarta-feira, 21 março, 2007

Esta atualização já estava virando lenda. Mas pudera: o poema que tivemos de traduzir deu trabalho de sobra. O professor fez vários comentários sobre a artificialidade da linguagem, para que atentássemos a mantê-la na tradução. Apesar da esquisitice e do jeito de dizer as coisas metendo os pés pelas mãos, acho que o poema agora está, de fato (e finalmente, após um sem-número de revisões!), em português.

A propósito: as ruas citadas no poema existem, todas. Detesto traduzir nomes de lugares, mas no caso me convenci de que era necessário, pois há trocadilhos e subentendidos que dependem de que o leitor entenda o nome das ruas. Na única ocorrência de um nome que parece não ter significado especial, mantive-o em húngaro, para manter o gosto estrangeiro.

Sobre a divisão dos versos: o original não tem esquema métrico aparente. Eu, pelo menos, não achei lógica nenhuma, nem contando a quantidade das sílabas (que é a tradição húngara), nem contando as sílabas métricas. Assim, dividi-os de forma a manter aproximadamente o conteúdo de cada verso do original, mantendo os cortes em lugares esquisitos, justo antes de terminar certas frases, e outros expedientes esquisitos, como começar um verso com travessões parentéticos.

E chega de trololó. Ao poema.

 

Acontece assim e assado

(“Így is, úgy is törtenik”)

 

Poema de Tandori Dezső

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

Ao sair do barbeiro – comecemos assim – era preciso atravessar

ou cortar o meio da rua, cortar a tal da rua principal

ao meio. Então rumo a uma passagem, de modo a sair por outra

passagem na tal de rua Jégverem. Claro, eu bem podia

ter dado a volta no quarteirão, ou melhor: não teria

sido necessário entrar pela passagem de um quarteirão e

sair pela outra. No entanto, assim pude estar lá dentro

– até quando? –, o que, de cabelo recém-cortado, foi de certa forma

vantajoso. No portão de saída pude – por quanto tempo? – tomar as

rédeas da situação; mas o cabelo lambido seca devagar, e assim

a operação desgrenhante a ser empreendida em casa não era antecipável;

não que pudesse ser adiada! Atualmente na tal de rua do Ataque

essa operação necessária mais ou menos de quatro em quatro

semanas é levada a cabo mais ou menos de seis em seis. A ocasião

faz-se acompanhar de um banco, lá fora, que por ora fica para

contemplação, mas a qualquer momento pode “cair bem” uma sentada;

faz-se acompanhar de um sorvete, talvez da satisfação de necessidades

postais. A desarrumação do cabelo cortado, minguado,

seco – ao sair –, as compras, o rosto parecendo mais

gorducho, o sentimento mais anguloso; os dois opostos

irreconciliáveis. Era sempre assim. Da tal rua do Túnel

seguimos reto e adentramos seu designante, que – no entanto

– jamais estivera tão iluminado quanto agora! Cravejado

de pequenos não-sei-o-quês. Não sei

(para que eu me repita) se hoje gosto mais do

treino em passagens escuras ou desta marcha triunfal;

digamos apenas que é possível; que um foi então,

e se tivermos sorte, o outro: ainda antes.

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4 Respostas to “Novo Poema: Tandori Dezső”

  1. lacarmencita said

    Se você não quer elogios, então retiro o que disse.

    Um grande beijinho!

  2. Alessandra said

    Achei, assim de primeira, muito muito muito bom. Vou agora ler outras coisas e quando reler, talvez deixe um comentário mais consistente :-).

  3. Marion said

    Guilherme, vou dizer o que senti ao ler: não é como poesia, nem como prosa. É mais como o texto de uma canção ou de uma ária de uma ópera moderna.
    Tem trechos que adorei: “o rosto parecendo mais gorducho, o sentimento mais anguloso; os dois opostos irreconciliáveis.” Uma poesia pictórica nessas palavras. Na verdade, um desenho a carvão. Essa impressão volta aqui “Da tal rua do Túnel seguimos reto e adentramos seu designante, que – no entanto – jamais estivera tão iluminado quanto agora! Cravejado de pequenos não-sei-o-quês. Não sei(para que eu me repita) se hoje gosto mais do treino em passagens escuras ou desta marcha triunfal;”

    Gosto muito de suas traduções, Guilherme. É pena que eu não possa ler o original para comparar. Eu já contei uma vez que eu arranhava um pouco de húngaro, mas já faz taantos anos, não tive oportunidade de continuar treinando, esqueci tudo, ou quase tudo. Acho que é uma língua muito musical, e percebo que você captou isso muito bem e soube traduzi-lo para o português.

    Um grande abraço, Marion

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