Palestra online no dia quatro de novembro!

quinta-feira, 28 outubro, 2010

Finalmente consegui me organizar para começar a segunda rodada das palestras online! A palestra inicial, como da outra vez, é De Deaf Sentence a Surdo mundo: o eloqüente diálogo de surdos entre o original e a tradução do romance de David Lodge, que será apresentada no dia quatro de novembro (quinta-feira) das 19h até aproximadamente as 21h.

Os inscritos ficam desde já convidados a tentar resolver algumas das dificuldades tradutórias que enviarei por email. Trata-se de um simples convite, no entanto, e os mais tímidos não precisam apresentar nem resolver coisa alguma se não quiserem.

Para obter mais informações a respeito do assunto a ser tratado, clique no link acima com o título da palestra, ou então clique aqui para saber mais detalhes sobre a inscrição e o funcionamento do ambiente virtual.

De Deaf Sentence a Surdo mundo

quinta-feira, 28 outubro, 2010

Nesta palestra eu detalho o processo tradutório e as soluções que adotei durante a tradução do romance Deaf Sentence/Surdo mundo, de David Lodge – um livro que apresenta muitas dificuldades curiosas literalmente desde o título até a última página. Como a história inteira gira em torno da surdez do protagonista, o texto original apresenta inúmeros mal-entendidos, trocadilhos, piadas baseadas em semelhanças sonoras entre as palavras e outros jogos lingüísticos similares que exigem um tratamento literário adequado no texto traduzido.

A partir da apresentação de vários trechos problemáticos, discuto algumas idéias teóricas relativas às estratégias tradutórias que podem ser adotadas e proponho soluções concretas para os as dificuldades apresentadas.

O objetivo é oferecer aos participantes um breve panorama do processo criativo envolvido na tradução de um texto com características formais tão marcantes.

Uma breve entrevista com algumas das minhas idéias a respeito desta tradução pode ser conferida aqui. Se quiser ler um trecho da tradução, clique aqui. Já se estiver procurando informações mais detalhadas sobre o funcionamento das palestras online, por favor não deixe de clicar aqui.

Palestra online no dia dois de setembro!

sexta-feira, 27 agosto, 2010

Após um período meio demorado de adaptação ao reinício das aulas do mestrado, estou retomando as minhas atividade online com a palestra A prosa espontânea de Kerouac em português: o processo tradutório do romance experimental Visões de Cody, a ser apresentada no dia dois de setembro (quinta-feira) das 19 às 21h. Vale a pena ressaltar que esse horário é aproximado, pois as duas palestras até agora duraram pelo menos meia hora mais do que o previsto!

Para obter mais informações a respeito do assunto a ser tratado, clique no link anterior, ou então clique aqui para saber mais detalhes sobre a inscrição e o funcionamento do ambiente virtual.

A prosa espontânea de Kerouac em português

sexta-feira, 27 agosto, 2010

Nesta palestra eu discuto o processo tradutório que adotei na
tradução do romance Visions of Cody/Visões de Cody, de Jack Kerouac.

Obra de forma livre e radical, Visions of Cody oferece inúmeros desafios tradutórios sobre os quais nem sempre é fácil encontrar material de apoio: neologismos, nonsense, transcrições de fala-em-interação, versos, aberrações ortográficas e prosa subversiva.

Para começar, comento o original inglês a partir de textos do próprio Kerouac em que o autor discute o método da prosa espontânea. A seguir, as soluções tradutórias – algumas das quais coincidem com o método usado por Antônio Houaiss na tradução do Ulisses, de James Joyce, e discutido no Panaroma do Finnegans Wake dos irmãos Campos – são apresentadas e discutidas.

O principal objetivo é mostrar, através de exemplos práticos e concretos, como as dificuldades tradutórias foram tratadas no texto final em português.

Uma brevíssima discussão das dificuldades e estratégias tradutórias adotadas nesta tradução pode ser lida nesta entrevista. Se você tem interesse em ler um trecho do livro, clique aqui.

Palestra online no dia 29 de julho!

terça-feira, 20 julho, 2010

No dia 29 de julho (quinta-feira), das 19 às 21h, apresentarei a palestra online V de vanilóquio: uma verificação das variações vocabulares nas várias versões em vídeo de V de vingança. Para obter mais informações a respeito do assunto a ser tratado, clique no link anterior, ou então clique aqui para saber mais detalhes sobre a inscrição e o funcionamento do ambiente virtual.

Palestras online: como funcionam

terça-feira, 20 julho, 2010

Como funcionam as palestras online? As palestras acontecem em uma sala virtual do WiZiQ aberta somente a convidados. É necessário cadastrar-se no site, mas o procedimento é extremamente simples e rápido. No dia da palestra, todos recebem um link de acesso à sala virtual. Para participar, é preciso ter caixas de som ou fones de ouvido e acesso à internet banda larga. O ambiente virtual também possibilita o uso de microfones e câmeras de vídeo por todos os participantes, mas esses equipamentos não são indispensáveis.

Quem é o público-alvo? Principalmente tradutores literários e tradutores de outros campos que estejam interessados em saber como podem ser abordados problemas característicos da tradução literária. Leitores interessados em tradução também são muito bem-vindos, mas estejam cientes de que as palestras não são direcionadas a não-tradutores com um interesse ainda muito incipiente em tradução.

Quanto custa? R$ 50 por pessoa cada palestra.

Como me inscrevo e quais são as condições? Escreva para guizomail[arroba]gmail[ponto]com pedindo os meus dados bancários ou, se você mora no exterior, o meu endereço do PayPal. Depois disso, podemos marcar um dia e uma hora para os interessados entrarem comigo no WiZiQ e aprenderem os comandos básicos da plataforma. Se durante o teste alguém descobrir problemas de ordem técnica que impeçam a utilização correta da plataforma, disponho-me a devolver o valor pago. Também me disponho a devolver o dinheiro dos inscritos caso eu não atinja um número mínimo de participantes ou se a palestra não ocorrer por qualquer motivo atribuível a mim ou por motivos externos que me impeçam de apresentá-la (ex.: falta de luz em Porto Alegre).

Palestra online: V de vanilóquio

terça-feira, 20 julho, 2010

Nesta palestra eu discuto as diferentes dublagens do monólogo aliterativo com que o personagem V se apresenta no filme V for Vendetta (a cena pode ser assistida na forma original aqui ou como texto animado aqui). Também comento a relação do monólogo com a história em quadrinhos, analiso aspectos estilísticos menos evidentes do monólogo e apresento as dublagens do trecho para o português brasileiro, o húngaro, o francês e o alemão a fim de discutir as estratégias utillizadas por diferentes tradutores a fim de manter o caráter aliterativo do monólogo em outras línguas. No fim, sugiro uma nova tradução para o trecho.

Örkény István e um conto-minuto

quarta-feira, 13 junho, 2007

Pela primeira vez acho que consigo fazer uma atualização num espaço de tempo decente, graças ao tempo livre de que tenho desfrutado nos últimos dias. A bola da vez é um conto do Örkeny István; para quem se interessar, recomendo o livro editado pela Editora 34 chamado A Exposição das Rosas, traduzido por Aleksandar Jovanov. Na época eu ainda sabia muito pouco húngaro e portanto não tenho nada a dizer sobre a tradução como tal, mas me lembro que o texto em português é bom. Este livro contém duas novelas curtinhas e geniais (especialmente a própria “A Exposição das Rosas”), mas Örkény é famoso por levar essa brevidade da novela e do conto ao extremo, sob a forma de egyperces novella, ou seja, conto-minuto. A idéia é essa mesma: escrever um conto que o leitor possa terminar em menos de um minuto. Örkény, para atingir essa brevidade, deu grande importância aos títulos, e no prefácio aos contos-minuto escreve que “Devemos prestar atenção aos títulos. O autor buscou a concisão, e assim não pôde dar títulos irrelevantes. Antes de pegarmos um bonde, precisamos conferir seu número. Os títulos desses contos têm a mesma importância.” Talvez isso explique o nome monstruoso do curto texto que traduzi, que por si só já dá uma bela ajuda para interpretá-lo.

Há quem vá achar absurdo, não tenho dúvida – o que não deve ser um problema. Como o próprio Örkény também escreveu, “Quem não entender alguma coisa, leia mais uma vez a história problemática. Se continuar sem entender, então há algum problema com o conto.”

De qualquer forma, espero que não haja nenhum.

Boa leitura e, como sempre, escrevam, escrevam.

Muitas vezes nos entendemos bem nos assuntos mais complicados, mas acontece de não nos entendermos nas questões mais simples

(“Sokszor a legbonyolultabb dolgokban is jól megértjük egymást, de előfordul, hogy egészen egyszerű kérdésekben nem”)

 

História de Örkény István

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

– Bom dia. É aqui que vocês alugam colchões infláveis?

– O que o senhor disse?

– Não é aqui? Me disseram que neste estande verde era o depósito do Ministério de Comércio Interior.

– E aqui é o depósito do Ministério de Comércio Interior. Mas nós só alugamos cadeiras reclináveis, esquis aquáticos e colchões infláveis.

– Ótimo. Dois colchões infláveis então, por favor.

– Não entendo uma palavra do que o senhor está dizendo. Sprechen Sie Deutsch?

– Nicht Deutsch.

– Eu também falo um poquinho de francês. Vu sprechen francê?

– Nicht francê.

– Mas afinal em que língua podemos conversar?

– Desculpe, mas eu só falo húngaro.

– Muito bem. Mas então por que o senhor não fala húngaro de uma vez?

– Como assim? Sou húngaro, nasci húngaro e só sei falar húngaro. Quanto custa o aluguel do colchão inflável?

– Por favor, não me venha com essa conversa. Sou apenas uma estudante de filosofia e história. Estou no terceiro ano e, agora no verão, vim aqui ganhar um dinheirinho.

– Fez muito bem.

– Passo a metade do dia trabalhando, e a outra metade na praia. E para sua informação, aquele ali tomando banho de sol é o meu namorado, e ele está no time de pentatlo.

– Mas por que você está falando assim, nesse tom de voz?

– Porque aqui nós só alugamos cadeiras reclináveis, esquis aquáticos e colchões infláveis. Se o senhor tem segundas intenções, veio ao lugar errado.

– Não tenho segundas intenções. Acredite, quero apenas alugar dois colchões infláveis.

– Bei uns ist vollkommene Glaubensfreiheit.

– O que você disse?

– Que aqui há liberdade religiosa. Os estrangeiros costumam perguntar se é possível ir à missa aos domingos.

– Preste atenção, por favor. Você estudou lógica. Vamos tentar nos entender em termos lógicos.

– Que língua estranha essa que o senhor fala! Em húngaro também dizemos “lógico”.

– Já que tocamos no assunto da liberdade religiosa… posso saber se você acredita em Deus?

– Só no sentido kierkegaardiano: acredito na realização. O senhor entende ao que me refiro?

– Mais ou menos. Para alguém flutuar a mais de 140 mil metros e ainda assim ser feliz… Você conhece Teilhard de Chardin?

– Não era leitura obrigatória, mas li dois livros dele em alemão.

– E o que você achou?

– A primeira vez que li, fiquei pasma. Eu disse “crianças, eis aqui o gênio da modernidade”… Mas depois, justo na questão decisiva, quando ele começa a unificar a religião e a ciência, ele se perde completamente.

– Interessante. Grosso modo, é o que eu também penso. Mas se nos entendemos tão bem, por que não chegamos a um acordo quanto a essas porcarias de colchões infláveis?

– Vulê vu alugar quelquechoz?

– Ora, por favor. Nós dois podemos pensar em termos racionais. Veja bem: vamos prosseguir por eliminação. O que você diria se eu pedisse duas cadeiras reclináveis?

– Aqui estão, senhor. Temos cadeiras com e sem guarda-sol.

– Muito bem. Mas diga-me, e os esquis aquáticos?

– Temos três tamanhos. Qual o senhor gostaria?

– Nenhum. Na verdade eu gostaria de alugar dois colchões infláveis.

– Dois o quê?

– Uma coisa de cada vez. Parece que não conseguimos nos entender por causa dessas duas palavras.

– Quais?

– Essas duas palavras, juntas. “Colchão” mais “inflável”. Você sabe o que é um colchão? Colchão de casal? Colchão de solteiro?

– Claro.

– Sabe o que significa “inflável”?

– Por favor, não seja ridículo.

– Pois então junte as duas palavras e me dê dois colchões infláveis.

– Creio que o senhor está enganado. Aqui nós só alugamos cadeiras reclináveis, esquis aquáticos e colchões infláveis.

– Peço desculpas, minha jovem.

– Por favor. Não foi nada.

– Até mais.

– Tudo de bom para o senhor.

Molnár Ferenc e algumas boas novas

segunda-feira, 28 maio, 2007

Em mais um update que demorou mais do que eu gostaria para sair, posto um conto do Molnár Ferenc. Esse não foi traduzido para a aula: peguei uns três ou quatro desses contos dialogados e os traduzi como exercício. Gosto do estilo irônico e sarcástico. Se o pessoal também gostar, faço uma revisão caprichada nos outros e os posto também.

No mais, além da resposta positiva que tenho recebido aqui no blog, tenho a alegria de comunicar aos leitores que a tradução do conto do Kosztolányi Dezső que postei um tempo atrás (“Feri”) tirou primeiro lugar em um concurso multilíngüe de tradução, promovido pela Magyar Fordítóház (Casa do Tradutor Húngaro). O prêmio é uma estadia de uma semana na casa, em Balatonfüred, para onde em breve parto. Lá também vou participar da festa de lançamento do Füredi Fordítói Füzetek, um periódico anual com traduções de obras de autores húngaros em mais ou menos vinte línguas. A edição deste ano vai incluir minha tradução de “Não Matarás”, da Radics Viktoria, além de traduções para outros dezessete idiomas.

Boa leitura e não deixem de postar comentários, que sempre leio com a maior atenção!

 

A Borracha Bicolor

(“A dupla Radírgumi”)

De Molnár Ferenc

Tradução de Guilherme Braga

 

Personagens: pai e filho. O menino tem seis anos. A cena se passa no escritório do pai. Sobre a escrivaninha, uma borracha composta de duas partes. Uma delas é cinza-claro, a outra, cinza-escuro. A parte clara serve para apagar escrita a lápis, enquanto a parte escura destina-se a apagar tinta. O pai fala em tom sério, enquanto mexe na borracha.

 

O PAI: Então você só veio para casa às seis horas.

O FILHO: Sim.

O PAI: E disse que a professora só chegaria às seis.

O FILHO: Sim.

O PAI: Filho, escute. A professora veio às cinco, e ficou aqui sentada, esperando. Portanto, você mentiu.

O FILHO percebe a borracha.

O PAI: Você mentiu.

O FILHO olhando para a borracha: É.

O PAI: Você mentiu, filho, e isso já é um grande problema por si mesmo. Mas ainda por cima sua mentira foi desajeitada; afinal, você sabia que a professora viria às cinco horas e então iríamos descobrir tudo. Por que você fez isso?

O FILHO pensando em voz alta: Sei que o lado claro serve para apagar mas não sei para que serve o lado escuro. Nunca vi uma borracha assim.

O PAI: Responda.

O FILHO: Ã?

O PAI: Responda por que você fez isso.

O FILHO: Sim. Pensando em voz alta: Será que é colada? Não pode. Ou pintada com uma tinta escura? Também não. Mas então, como é que uma metade é clara, e a outra, escura?

O PAI: Ora, não precisa ficar tão preocupado, filho. Eu não mordo. Responda sem medo, como um homem. Olhe nos meus olhos. Não precisa ter medo. Eu não vou castigar você, apenas chamar sua atenção. A coisa mais inteligente a se fazer nessa vida é sempre falar a verdade. Olhe nos meus olhos. Não precisa ter medo. Por que você mentiu?

O FILHO: Porque… porque… Pensando em voz alta: a metade escura não serve para segurar a borracha, porque ali também está gasto, como se tivessem usado aquela parte para apagar. Então aquilo também é borracha. Mas essa ponta deve ser de alguma borracha especial, senão ela não seria de outra cor.

O PAI para si mesmo: O garoto tem muita auto-estima e é muito honesto. Vejam só, estou falando com ele em um tom amigável, mais amigável impossível, e mesmo assim ele está sendo vago, responde perturbado. Eu sou uma grande influência para ele. Digamos que no meu olhar há um certo rigor que me fez famoso em minha carreira de juiz. Os réus também ficam perturbados se olho demais para eles. Mas bem, agora não sou um juiz, e não estou diante de um réu. É o meu filho. Preciso tratá-lo de um jeito mais amigável. Amigavelmente: Filho querido, você se arrepende de ter mentido?

O FILHO: Me arrependo. Pensando em voz alta: Me arrependo de tudo, confesso tudo, peço desculpas, peço o que você quiser, desde que isso acabe de uma vez. E assim que você sair, vou dar uma boa olhada nessa borracha.

O PAI: Promete não mentir mais?

O FILHO: Prometo.

O PAI: Então dessa vez você vai escapar do castigo, filho. Mas, para que você não esqueça esse dia, você vai escrever cem vezes: “Não devo mentir jamais”.

O FILHO: A lápis ou a caneta?

O PAI: A caneta. Mas, filho, estou vendo que você é um menino honesto, que nem protestou contra o castigo. Então, se você pedir desculpas bem bonito, também não precisa escrever a frase cem vezes. Pensando em voz alta: Preciso tratar meu filho com carinho. Ele é um bom menino. Eu também era assim.

O FILHO pensando em voz alta: Lá se foi a borracha.

O PAI: O quê?

O FILHO: Prefiro escrever, papai.

O PAI: Como? Não vai pedir desculpas?

O FILHO: Não.

O PAI para si mesmo: Igualzinho a mim. Igualzinho a mim. Ele não precisa de uma caridade que abuse de sua auto-estima. Eu também era assim. Mas, como pai, não posso admitir uma coisa dessas. Dirigindo-se ao filho: Não vai pedir desculpas? Você não vê que fez uma coisa errada?

O FILHO para si mesmo: Com certeza a borracha apaga tinta muito bem. Mas também vou tentar apagar o lápis com a ponta escura.

O PAI: Filho, responda. Calar-se é um ato de coragem, mas não há por que fazer isso diante do seu pai. O pai não é apenas juiz, mas também seu amigo.

O FILHO para si mesmo: Se eu disser uma única palavra, ele já desiste do castigo, e aí não vou poder ficar na escrivaninha. Mas eu vou pegar uma faca e cortar um pedacinho, bem pequeninho, para ele não perceber.

O PAI: Você não confia em mim?

O FILHO para si mesmo: E aí vou sujar o lugar onde eu cortei com o dedo, para ele não ver o corte.

O PAI: Mas como você é persistente! Muito bem. Satisfeito, para si mesmo: Eu também era assim, eu também era assim.

O FILHO: Papai, eu…

O PAI: Sim?

O FILHO: Eu vou escrever as cem vezes.

O PAI para si: Não posso dispensá-lo do castigo. Fico feliz por ele não ter pedido desculpas, mas agora ele precisa escrever as cem vezes. Eu também preferia agüentar o castigo a me humilhar. Ao filho, sério: Então você vai escrever agora mesmo “não devo mentir jamais” cem vezes. E só vai jantar depois de terminar as cem!

O FILHO: Cinqüenta a lápis e cinqüenta a caneta.

O PAI: Pouco importa. Agora você vai sentar aí na mesa, e não me apareça na sala de jantar enquanto não estiver pronto. Vamos lá. O menino se senta. O pai se dirige à porta.

O PAI para si: Ele nem piscou. Estava alegre, inclusive. Fico feliz por ele não ter se humilhado. Estou satisfeito. Esse garoto tem um grande caráter! Sai.

O FILHO para si: Finalmente! Uma hora mais tarde.

O PAI: E Então? Pronto?

O FILHO: Pronto, papai. Só que me enganei e escrevi a mais. Escrevi cento e dez vezes. Mas agora mesmo vou apagar essas dez. Cinco a lápis e cinco a caneta. Apaga com o rosto corado de prazer.

O PAI para si: Quanta exatidão, quanta organização, quanta meticulosidade! Personalidade, auto-estima, obstinação masculina e meticulosidade… exatamente como eu, exatamente como eu. Vou fazer dele um juiz! Feliz, beija a cabeça do filho.

Conto Erótico: Radics Viktoria

segunda-feira, 16 abril, 2007

Eis a nova tradução: um trecho do conto Ne Ölj! (“Não Matarás”), de Radics Viktoria, publicado em uma antologia de literatura contemporânea chamada Éjszakai Állatkert, cujo tema é a sexualidade feminina. Foi meio que um golpe de sorte, pois o tema tem tudo a ver com o livro que atualmente traduzindo do inglês – então eu já estava no clima – e, de quebra, a tradução vai (pelo que tudo indica) ser publicada no Füredi Fordítói Füzetek, um caderno anual que traz sempre o texto de um escritor húngaro na língua original e em mais ou menos vinte outros idiomas.

Mesmo assim, a tradução demorou outra vez, pois foi um tanto cheia de particularidades (e nesse ponto aviso que vou discutir algumas o texto e a tradução: quem quiser fazer uma leitura com jeito de surpresa, pare de ler minhas divagações por aqui mesmo, leia o texto e continue lendo os comentários depois. De modo bem sucinto e drástico, SPOILERS AHEAD!).

Como se não bastassem alguns problemas, digamos, “normais” da tradução literária – trocadilhos, imagens difusas, metáforas e insinuações diversas –, dessa vez apareceu um problema com o qual eu ainda não havia me deparado: citações diretas e “mexidas” de um cânone literário estrangeiro e absolutamente desconhecido do leitor-alvo, como, no caso, a poesia húngara. Por citação “mexida”, refiro-me a uma distorção de um verso ou citação conhecida, que para as pessoas do ambiente cultural onde a obra original foi criada é instantaneamente reconhecível – imaginem algo como

Minha terra tem pedreiras

Onde plantam jatobá

 

ou

 

Mas que seja esquisito enquanto dure

 

Não preciso dizer que isso foi provavelmente o que mais tomou tempo, já que não se tratava apenas de traduzir, mas também de decidir o que fazer. Notas de rodapé, como sempre, estavam fora de cogitação – detesto. Ademais, pesquisei mas não achei traduções para o português dos versos citados, o que significa que eu teria dois problemas: (1) de alguma forma dar a entender que se trata de uma citação e (2) de alguma forma dar a entender que a citação fora “mexida”. Para os versos citados diretamente, bastaria traduzir e de algum modo sinalizar. Mas como “mexer” em uma citação que sequer existe em português? Após alguns dias quebrando a cabeça, cheguei a uma solução que me pareceu razoável: traduzi o verso original e depois dei um jeito de mexer nele de modo que remetesse à minha própria tradução dele. Claro, como a minha tradução “direta” do verso não está publicada em lugar nenhum e ninguém a conhece, o mecanismo de referência não funciona, mas pelo menos me pareceu uma saída razoável e metodologicamente correta.

Quanto a sinalizar as citações para o leitor, o próprio texto acabou me dando uma solução. Lá pelas tantas a autora cita diretamente um verso e escreve, entre parênteses, lopott idézet – em bom português, “citação roubada”. Bom, aqui a autora sinalizara uma delas, mas eu precisava sinalizar também as outras pelos motivos explicitados acima. A solução foi traduzir por “mais uma citação roubada”, o que me pareceu apropriado.

Não vou me estender demais aqui, mas de repente em outra oportunidade me aprofundo mais um pouco em relação a como fiz esta tradução. Outras dificuldades incluíram um trocadilho e alusões não-intertextuais, que não vou explicar para dar um pouco de trabalho ao meu leitor e também porque creio estarem visíveis no texto em português. Boa leitura!

 

Não Matarás

(“Ne Ölj!”)

 

Do texto de Radics Viktoria

Tradução de Guilherme da Silva Braga

 

A mágoa cigana lhe tolda o olhar – não resta dúvida. Os lábios ciganos, a pele violeta-cigano, bronzeada, as ondas azuis sob os olhos e a sina crioula. (Ou melhor: como alguém que passou dois meses de férias no Adriático.) A vida cigana atrás, dentro, abaixo dele – só não acima, pois lá o firmamento divino fulgura. Os cabelos brancos. Como nos contos-de-fada, digo, intelectual malvada que sou: a choça, a mãe pedinte, a sopa de cenoura, as brigas, as facadas, o crime, a tosquia de ovelhas, o submundo de Budapeste e, claro, a prisão, como não podia deixar de ser; a pedreira… “Foste traído por tanto te amarem, Traíste e agora não podes amar”; o dinheiro, as cartas, a redenção. Literata estúpida, ouço as histórias do submundo boquiaberta. No velho Škoda, passamos em frente a uma igreja evangélica. “Entramos ali uma vez”, diz ele, apontando para o escritório, “e só achamos um computador velho e uns 30 mil forintes. Mas enfim, que se dane!”

 

Vejo despertar no cigano um sentimento muito similar ao meu. Vibramos – uma harpa eólica em meu coração, o dele palpita, “Minha alma-rapina as grades partiu” (ad notam: “Já não se imagina em meio ao vazio”), aconchegamo-nos um no outro, me escondo por baixo da pele cor de café; minha brancura o agrada, bebo, bebo, bebo o néctar oculto entre seus lábios, a língua, as palavras, o mosto da montanha. Você fica muito bem aí; em meio às folhas da videira, o cacho escuro, que tomo na minha mão, como as uvas, desfaz-se, beijo as bagas, como-as no cacho, enfio meu rosto, meu nariz – e minha garganta também está alegre, ungida e honrada.

 

Ele traz muitas tolices dentro de si, claro, dogmas e mais dogmas, como remendos e mais remendos, ainda que não remende ou conserte tachos e caçarolas, mas idéias carolas – eu teria pulado no pescoço de qualquer outra pessoa, mas dele eu tolero (ainda que me desagrade) e sinto justamente que, no fim das contas, não sei nada. Me agarro a um destroço podre no mar pós-moderno. Tudo é em vão, meu conhecimento acumulado ao longo de trinta anos não é nada. Ele que tente se endireitar. Mesmo quem sofre o preconceito de todos também é cheio de preconceitos (o que, aliás, parece ser uma regra). Cretinices absurdas saem de sua boca. Da minha também; sou cheia de clichês intelectuais. “Minha professorinha.” Às vezes fala como se houvesse perdido sangue; perde a cabeça, beira a agressão (“puxe logo a faca”, digo, mas ainda assim começo a dar risada) e fala contra os homossexuais e contra as mulheres – contra as mulheres, enquanto percebo que ele me ama; contra a concupiscência, enquanto ele tem vontade de trepar comigo até o dia raiar, de tudo quanto é jeito, mesmo antes do “casamento”. Os veados, na exclusão, recorrem a seus semelhantes – e as mulheres, óbvio, são os bodes expiatórios. É claro que tudo isso vem da igreja. Insuportável.

 

Levanto-me de imediato: deixo-o por aqui mesmo, e ele que se dane e me mate, animal estúpido; vamos virar balada. “Eu te desejo como um bicho.” Bruto, estúpido. “Diz ‘pau’.” Não digo. “Vou te foder tanto, mas tanto!”, cochicha ele, excitado, logo depois de afirmar que as mulheres são todas como Jezebel – a ruína e a destruição dos homens, feiticeiras cruéis e ímpias – e de fazer pouco caso da emancipação feminina. Agora só falta dizer que sou puta por estar com ele; mas nesse ponto ele fica pensativo.

– Ontem você me ofendeu, insultou o meu sexo – digo ao telefone. – Eu não fico ridicularizando os homens!

Sim, chegamos a esse ponto. Estou pasma.

 

Não me incomoda que às vezes ele seja tão artificialmente imbecil, pois no fundo sinto o palpitar belo de seu intelecto natural, envolto em pele de leopardo; eu também sou estúpida, cretina e louca – afinal, o que foi que aprendi com aqueles milhares de livros? No fim, menos do que ele aprendeu com apenas um. Como se ele houvesse freqüentado uma academia aeterna, treinado a língua com a Bíblia de Károli, lido um único livro com todo o coração, enquanto eu li mil de má vontade. Sem falar das diferenças entre nossas experiências. Mas no fim aprendi pelo menos a prestar atenção – ou será que nem isso? Observar, prestar atenção e perceber, farejar, tocar e sentir… É para isso que rezo. Pela verdade, não para que os meus conceitos triunfem, mas Ele, pela palavra. Eu não passo de uma rata de biblioteca, um ornitorrinco, um emaranhado de miolos femininos, e já fui um pouco amada por causa disso – um pouco, que fique bem claro.

Ele também nunca foi amado de verdade. Um garoto cigano de 47 anos, humilhado. “Você nunca vai ser ninguém” – e ele apanhava e brigava, jogava um carteado, roubava, saqueava, batia e furava para isso, como um espinho ao outro (mais uma citação roubada). E eu falhei, machuquei a mim e aos outros, traí ser humano e consciência. Talvez o que para ele foi acaso, para mim tenha sido arte? Perdemos tudo.

Ninguém nos ama.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.